15.4.18

Companheira


Companheira é o título do livro mais recente do escritor Nelson Hoffmann.  No mesmo dia que chegou pelos correios eu li. Quis ler uma segunda vez, uma terceira para então fazer um breve comentário. Companheira, quando vi a propaganda do livro achei que seria a esposa. Mas não é. A pequena novela é uma conversa poética e enriquecida de boas metáforas sobre morte. Isso mesmo, a Companheira do Hoffmann é a morte. Parece loucura? Não é! Como ele disse “ Loucura é ignorar a morte” O mundo girou para o autor depois de um problema cardíaco e dois meses no hospital. A sua destreza enquanto escritor fez do texto que relata sua agonia uma prazerosa degustação. E como não refletir sobre seus registros quando diz: “ Mas ela (a freira que o visitava) não enxergava que eu estava com a vida, a verdadeira, dentro de mim. Que eu tinha visitado a morte e a morte me alertara para os valores da vida. Valia a pena viver, ciente que a morte estava ao meu lado. ” Eu sempre tratei e vi a morte como o ponto final, no sofrimento, nas discussões e nunca como uma força para viver. Afinal porque temos que nos alimentar adequadamente, respeitar leis e regras senão por medo da morte? E no último parágrafo um resumo daquilo que pensamos depois de passar por problemas sérios. “ Caminho com a morte, sempre em mim, vivendo-me. As vaidades do mundo sumiram, a simplicidade é minha entrega total. A bondade dos outros é o meu sustento. E a morte é minha companheira, ensina-me a viver.”  Nelson Hoffmann é um mestre. Aprendo lendo e relendo seus textos e aprendo com o exemplo de simplicidade como ele vê algo que poderia levar a morte e transformou em inspiração para a vida. E repito com ele: A morte ensina-nos a viver.

3.4.18

Dúvidas


Não sei o que faço:
se atravesso a rua
ou tomo um trago.
Não sei o que faço:
se acendo um cigarro
ou pulo o muro.
Não sei o que faço:
se dou um forte abraço
ou fujo de teus laços.
Não sei o que faço:
se caminho sozinho
ou te aguardo.

2.4.18

Confuso III


Procuro sem cessar o teu brilhante olhar,
e vejo a agitação de teu dedo em riste,
vejo o brilho de teus lábios umedecidos
e percebo que ainda estou confuso.
Procuro no teu andar simples e compassado
o ritmo proeminente e singular de tua anca
e a sutileza harmônica do teu pé sobre o chão
e percebo que ainda estou confuso.
Procuro não estremecer ao ouvir tua voz
a chamar-me para o abismo espinhento
espero na sombra ter uma única certeza
mas por enquanto estou pluralmente confuso.

28.3.18

Agora! Agora?


Percebo agora
que era tudo vidro e quebrou
que eu não era tão forte
como você imaginava.
Percebo agora
que tudo era uma grande utopia
que o sentimento não era tão sólido
como eu dizia.
Percebo agora
que tudo era feito com mentiras
que se dissipou com o primeiro vendaval
não era o que nós queríamos.

26.3.18

Horror no garimpo





Conheci Luiz numa loja de móveis em que trabalhei alguns meses. Luiz era montador de móveis e motorista do caminhão de entrega. Num dia sem movimento ele contou uma história horrenda que de início não acreditei. Ele afirmou que era verdade que estava lá quando aconteceu e tinha fotos para mostrar. Conta ele que certo dia no garimpo, era feriado religioso, por isso os garimpeiros estavam de folga nos barracos. No barracão central que servia de refeitório, bar e local adequado para jogarem baralho ou simplesmente conversarem, estava a maioria dos trabalhadores.
Foi então que um avião começou a fazer uns voos sobre o barracão. Soubemos que um garimpeiro bamburrado queria fazer graça. Alugou o avião e pediu ao piloto para passar sobre o barracão para ver todos tremerem. Alguns saíram para fora e ficavam jogando praga nos ocupantes do avião.
Luiz pegou a sua máquina fotográfica e se distanciou do barracão para ver se conseguir alguma foto. Foi então que o piloto perdeu a direção, desceu demais da conta e foi atropelando quem estava na frente. O avião atravessou o barracão na altura das mesas parando bem próximo do balcão de bebidas, Era quase 10 metros de salão que foi todo tomado pelo avião.
Teve acidentados e algumas mortes. Alguns sujeitos com braços, pernas e costelas quebrados. Nisso o Luiz mostrou as fotos. Tinha dois sujeitos que foram cortados ao meio na altura da cintura. As fotos eram horripilantes.
Os garimpeiros que não estavam feridos se organizaram para ajudar os feridos e correr atrás de locomoção para o hospital mais perto. Piloto e passageiro estavam mortos.
Tinha outro avião na pista. Buscaram o piloto que estava pescando. Organizaram os feridos no avião e mais duas pessoas e o piloto se prepararam para o voo. Quando o avião levantou voo sem problema e já davam com o caso resolvido foi quando, não muito longe, o avião explodiu no ar.
Então começou um novo trabalho para eles. Como já tinham avisado a polícia via rádio era só aguardar para recolher os corpos. Luiz me mostrou outra foto, agora eles no meio da mata recolhendo os restos mortais dos ocupantes do avião que explodiu.


20.3.18

Quero pedras.


Joguem-me pedras

por favor pedras lascadas
não quero as polidas: rejeitarei
Quero pedras brutas
rochas enigmáticas
rochas com ranhuras misteriosas
para que eu desvende
os mistérios e os segredos
das pedras
da humanidade
da vida.

12.3.18

Ah! Era a lua




Eu olhava para o céu estrelado infinitamente
e pela cortina de minha janela te via
tão espetacularmente bela quando cheia.
- Ah! A lua. Era você Lua.

A mesma atração marítima por ti sentia
era um momento de buscar inspirações
para as minhas irrisórias canções de amor.
- Ah! A lua. Era você Lua.

Emocionado e solitário deitava na cama
pela janela você suavemente e calmamente
entrava e respeitosamente acariciava meu rosto.
- Ah! A lua. Era você Lua.

Procuro respostas para tristes perguntas
algo que sanasse minhas desesperadas dúvidas
no seu dourado brilho que me entorpece e me guia.
- É a lua. Que Lua.

11.3.18

Lembranças: O carrapicho e eu




Quando tinha 16 anos, estudava a noite e fui trabalhar no supermercado do Mazinho, em Cruzeiro do Sul- Pr. O mercado era pequeno, tinha apenas eu de funcionário. Trabalhava ali a família toda do Mazinho, ele a esposa, dois filhos adolescentes e eu. Era mês de dezembro e o feriado de Natal se aproximava.
Para contar esse caso preciso explicar quem era o carrapicho. Era um maltrapilho, não sei se posso dizer isso dele. Não tinha morada, então podemos considerar que era um morador de rua. Era sabido que dormia no salão paroquial, atrás da igreja católica. Seu aspecto lembrava uma pessoa alcoolizada. Não se cuidava, sempre a barba e o cabelos por fazer. Alguns diziam que ele tinha problemas mentais e assim contavam várias histórias sobre o coitado do carrapicho. Acredito que ele vivia de pequenos bicos e de doações. As crianças e jovens sentiam medo dele devido ao modo como se vestia, não era adepto a banhos. Nunca soube que era uma pessoa má, e não era. Quando alguém perguntava de onde viera ele respondia que veio de Três Corações, a cidade de Pelé. Em outras vezes dava respostas diferente a mesma pergunta.
Na véspera de Natal o Sr. Mazinho me convidou para almoçar no dia seguinte na casa dele, com a família. Me senti importante e com medo. Era a primeira vez que iria almoçar na casa de alguém que não fosse parente. Para mim ele era rico e em minha pequena cabeça de adolescente ricos e pobres não se misturavam. Eu era o empregado e ele o patrão. Então fui. Foi a primeira vez que almocei sentado todos em uma mesa. Em casa isso não acontecia. Foi a primeira vez que usei garfo e faca. Na mesa somente a família: o pai do Mazinho, a esposa, os dois filhos adolescente e uma menina ainda criança e além de mim estava também o carrapicho.
O Sr. Mazinho poderia ter convidado pessoas de seu círculo de amizade como prefeito, vereadores e outros. Mas, como homem de bom coração convidou um morador de rua. Uma pessoa que certamente passaria a natal esquecido por muitos, mas não foi esquecido pelo Mazinho. No início eu estranhei. Depois de refletir percebi que aquele gesto de convidar o carrapicho mostrou para mim que estava na casa de uma família acolhedora, que pensa no outro. Eu era tímido, se tivesse mais curiosidade tinha aprendido grandes lições de vida com o Mazinho e também com o carrapicho.
Hoje o Mazinho já deve ser avô e bisavô e ainda mora na mesma cidade. O mercado fechou, no prédio funciona uma loja de uma amiga minha de infância. O Carrapicho, soube depois que a família veio buscar, ele foi encontrar os seus.

27.2.18

Sou só. Só sou.

Grito desesperado:
- Quero um abraço!
Ouço pedras no zinco quente.
Falo de um amor perdido
só e a mim mesmo.
- Quero um afago!
Ouço maracanãs taramelar
no alto do mamoeiro.
Tenho medo e sussurro:
- Quero um beijo!
Ouço o estrilar dos grilos e
depois sonho com o vácuo obscuro.

Valter Figueira 27/02/2018

26.2.18

Vazio


Há um imenso vazio em mim
que fica aguardando ansiosamente
o que comumente transborda
em você.

16.2.18

Quero ficar só


Quero ficar só para contemplar
o orvalho da manhã
Quero que a brisa matinal traga
sua canção preferida para meu delírio
Quero que o primeiro raio solar
traga a paz que tanto desejo em meu coração
Quero ser capaz de contemplar o seu sorriso
refletido na calmaria solitária do lago
Quero um lago de lágrimas
Quero......só quero!
Valter Figueira 16/02/2018

15.2.18

Quero



Quero sentir novamente
a suavidade de seu rosto colado ao meu.
Quero um abraço forte para sentir
novamente o calor de um abraço seu.
Quero pegar em suas mãos andar na praça
para sentir a brisa que toca seu rosto tocar o meu.

Preciso sentir a suavidade de seu
corpo nu colado ao meu.
Preciso do amor forte e sincero
que a gente já viveu.


Valter Figueira 15/02/2018

14.2.18

Exercitando


Serei o tocador das liras flutuantes
Viajarei entre os olhares brilhantes
Contemplarei o olhar da musa apaixonadamente
Amarei com todo fervor de antes
Vencerei a solidão infernal de Dante
O tocador das liras flutuantes eu serei
Entre os olhares brilhantes eu viajarei
O olhar da musa apaixonadamente contemplarei
Com todo fervor de antes amarei
A solidão infernal de Dante vencerei
Poetarei para me livrar do abismo
Versarei para que compreendas minha paixão
Encontrarei em seu colo o carinho
Viverei eternamente apaixonado
Morrerei suplicando um beijo
Para me livrar do abismo poetarei
Para que compreendas minha paixão versarei
Em seu colo o carinho encontrarei
Eternamente apaixonado viverei
Suplicando um beijo morrerei.
VF 14/02/2018


8.2.18

Poesiar


Há algo no ar
nos fios de cobre
na brisa do mar.
-Quer casar comigo?
Há um perfume no ar
inebriante a laçar
o vento no mar.
- Pode ser amanhã?
Há uma música no ar
na calmaria do mar
mansamente a valsar.
- Tem que ser hoje!
Há uma poesia no ar
alguns ébrios de mar
e eu sóbrio a poetizar.
-Vamos poesiar.

Uns olhos azuis


Li a novela "Uns olhos azuis" na cadência das músicas gaúchas e apreciando a suavidade poética dos versos. Eu ia construindo mentalmente o olhar apaixonante da menina de olhos azuis. Adentrei e me perdi no contexto. Em momentos eu era o apaixonado Vilson nos bailes da juventude, deixando o corpo definhar devido a paixão platônica. Em outros momentos eu era o amigo escritor, lendo as aventuras e ouvindo as canções para buscar na poesia a suavidade e beleza que o texto se construía.
O livro permite uma leitura suave e leve como uma boa música.

5.2.18

PROSA & POESIA


Mais um poeta haicaísta que muito contribui e contribui para o nosso saber literário:
Guilherme de Almeida (Guilherme de Andrade de Almeida), advogado, jornalista, poeta, ensaísta e tradutor, nasceu em Campinas, SP, em 24 de julho de 1890, e faleceu em São Paulo, SP, em 11 de julho de 1969. Em 1932 participou da Revolução Constitucionalista de São Paulo. Em concurso organizado pelo Correio da Manhã foi eleito, em 16 de setembro de 1959, “Príncipe dos Poetas Brasileiros”. Um dos promotores da Semana de Arte Moderna, em 1922, foi fundador da Klaxon, a principal revista dos modernistas. Principais obras: Nós, poesia (1917); A dança das horas, poesia (1919); Messidor, poesia (1919); Livro de horas de Soror Dolorosa, poesia (1920); Era uma vez..., poesia (1922); A flauta que eu perdi, poesia (1924); Meu, poesia (1925); Raça, poesia (1925); Encantamento, poesia (1925); Do sentimento nacionalista na poesia brasileira, ensaio (1926); Ritmo, elemento de expressão, ensaio (1926); Simplicidade, poesia (1929); Você, poesia (1931); Poemas escolhidos (1931); Acaso, poesia (1938); Poesia vária (1947); Toda a poesia (1953).


Consolo
A noite chorou
a bolha em que, sobre a folha,
o sol despertou.

Os andaimes

Na gaiola cheia
(pedreiros e carpinteiros)
o dia gorjeia.

Pescaria

Cochilo. Na linha
eu ponho a isca de um sonho.
Pesco uma estrelinha.

Romance

E cruzam-se as linhas
no fino tear do destino.
Tuas mãos nas minhas.

O haicai

Lava, escorre, agita
a areia. E enfim, na bateia,
fica uma pepita.

O pensamento

O ar. A folha. A fuga.
No lago, um círculo vago.
No rosto, uma ruga.

Hora de ter saudade

Houve aquele tempo...
(E agora, que a chuva chora,
ouve aquele tempo!)

Infância

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".

Cigarra

Diamante. Vidraça.
Arisca, áspera asa risca
o ar. E brilha. E passa.

Consolo

A noite chorou
a bolha em que, sobre a folha,
o sol despertou.

Chuva de primavera

Vê como se atraem
nos fios os pingos frios!
E juntam-se. E caem.

Noturno

Na cidade, a lua:
a joia branca que boia
na lama da rua.

Os andaimes

Na gaiola cheia
(pedreiros e carpinteiros)
o dia gorjeia.
 


Tristeza

Por que estás assim,
violeta? Que borboleta
morreu no jardim?

Pescaria

Cochilo. Na linha
eu ponho a isca de um sonho.
Pesco uma estrelinha.

Janeiro

Jasmineiro em flor.
Ciranda o luar na varanda.
Cheiro de calor.

De noite

Uma árvore nua
aponta o céu. Numa ponta
brota um fruto. A lua?

Frio

Neblina? ou vidraça
que o quente alento da gente,
que olha a rua, embaça?

Festa móvel

Nós dois? - Não me lembro.
Quando era que a primavera
caía em setembro?

Romance

E cruzam-se as linhas
no fino tear do destino.
Tuas mãos nas minhas.







Novo livro


3.2.18

Infinito


Para onde vai o ar que respiro
quando bate o vento?
Essa brisa que me acompanha
e depois se perde no horizonte,
para onde vai?
Para onde vão as imagens
que são esquecidas no firmamento?
Para onde vãos os rostos de ontem,
rostos que mudam com o tempo?
Para onde vai essa luz e esta sombra
companheira de atalhos e abismos?
Quando formos já não teremos sombra
e as pegadas se apagam.
Para onde vão a tristezas e os sorrisos
as imagens e os horizontes?
E as flores das janelas, os aromas
de teu amor distante?
Para onde irão esses versos
perdidos de tantas perguntas?
Valter Figueira
Do livro "Anjo Rosa"

Eu preciso


Foi-se embora o tempo 
em que eu poderia dizer 
simplesmente eu quero e eu posso.
Hoje eu preciso
de um encanto
de um abraço
de um sorriso.
Não quero,
o querer tem a possibilidade do
não querer
Eu preciso
de um encanto
de um olhar apaixonado
de gestos que indique um desejo.
Não mais desejo
o desejar tem a
possibilidade do não
ou do saciar
eu preciso.
Preciso de um encanto
de um abraço
de um beijo.
Chegaste como uma brisa
e partiste como um vendaval,
no intervalo tudo foi tão suave
que nem percebi que estávamos
vivendo uma paixão tempestuosa.

A garota do poema

Foi apenas um olhar, você disse.
Não foi! Aquele olhar me devastou
o brilho cegou-me que tropecei e cai de amores.

Foi apenas um sorriso, você disse.
Não foi! Aquilo foi um turbilhão de encantos
que me apaixonei.
Foi apenas um beijo, você disse.
Não foi! Nossas faces se encontraram
numa explosão de sentimentos e desejos.
Foi apenas um poema, você disse.
Não foi! Aquilo era o fiel retrato
da minha paixão.
Foi apenas um adeus, você disse.
Não foi! Foi o estopim para o choro contido
poemas e canções perdidas pelo vento
das frias manhãs de junho.

4.10.17

Prosa e poesia

Seguindo nossa caminhada literária pelos poetas haicaístas, o espaço de hoje é dedicado a poetisa Helena Kolody, paranaense, professora, foi a primeira mulher brasileira a utilizar a estrutura haicai em suas poesias.
Helena Kolody (1912-2004) considerada uma das maiores representantes literárias do Estado do Paraná. Nasceu na cidade de Cruz Machado, no Paraná, no dia 12 de outubro de 1912. Com 12 anos escreveu seus primeiros versos. Em 1928, com 16 anos, tem seu poema “A Lágrima” pulicado na revista “Marinha”, de Paranaguá, a maior divulgadora de sua obra. Em 1941, Helena Kolody publicou seu primeiro livro “Paisagem Interior”. Em 1941, escreveu seus primeiros haicais, sendo criticada, por não ter rima, mas continuou publicando essa forma de poesia. Grande parte de sua vida foi dedicada à poesia. Faleceu em Curitiba, Paraná, no dia 15 de fevereiro de 2004.
Alguns haicais de Helena Kolody:



A flecha de sol
pinta estrelas na vidraça.
Despede-se o dia.

Bate breve o gongo.
Na amplidão do templo ecoa
o som lento e longo.

Corrida no parque.
O menino inválido
aplaude os atletas.

Da estátua de areia
nada restará
depois da maré cheia

Depois será sempre agora
viajarei pelas galáxias
universo afora

Dormem as papoulas
a lua sonha no céu
vigiam os grilos

Em líquidos caules,
irisadas flores d'água
cintilam ao sol.

Festa das Lanternas!
Os ipês estão luzindo
De globos cor-de-ouro.

Luar nos cabelos.
Constelações na memória.
Orvalho no olhar.

Manhã nas flores do cardo
leve poeira de orvalho
manhã no deserto

Nas flores do cardo,
leve poeira de orvalho.
Manhã no deserto.


Nas mãos inspiradas
nascem antigas palavras
com novo matiz.

O brilho da lâmpada,
no interior da morada,
empalidece as estrelas.

Os olhos do amado
esqueceram-se nos teus.
Perdidos em sonho

Para quem viaja
ao encontro do sol
é sempre madrugada.

Puseste a gaiola
suspensa dum ramo em flor
num dia de sol

Pintou estrelas no muro
e teve o céu
ao alcance das mãos.

Será sempre agora.
Viajarei pelas galáxias
universo afora.

Tão longa a jornada!
E a gente cai, de repente,
No abismo do nada.

Trêmula gota de orvalho
Presa na teia de aranha,
rebrilhando como estrela.

Um sabiá cantou.
Longe, dançou o arvoredo.
Choveram saudades.

Voo solitário
na fímbria da noite
em busca do pouso distante



13.6.17

Caminhada


Você caminhou lentamente
contra o vento, contra o tempo
você caminhou lentamente
sem rumo e sem lamento.
Você caminhou e não pestanejou
não olhou em volta e nem retornou
não cumprimentou os caminhantes
disseram: "Boa sorte, vá em frente".
O tempo passou e não te derrubou
os obstáculos foram todos derrotados
não se rendeu as fraquezas do mundo
em seu coração um sentir profundo.
Seus olhos hoje reluz a tristeza
seu rosto já não mostra toda beleza,
seus seios não são mais rijos,
em sua mente só delírios.
Seus lábios não são mais mel,
sua voz já não diz mais nada,
seus desejos são portas fechadas,
e seu olhar só mira o céu.
Valter Figueira
Do livro "Doces Encantos"

15.3.17

Dia do Circo



Dia 15 de março é o dia internacional do circo. Por representar uma manifestação cultural e fazer parte da vida de muitas pessoas, é raro uma pessoa que nunca esteve num circo, os profissionais da educação de uma forma ou de outra fazem alguma atividade com os alunos para comemorar esta data.
O personagem mais lembrado do circo é o palhaço por isso e por ser o mais fácil de personalização pelas crianças é que elas viram palhaço por um dia. Mas devemos lembrar que os profissionais da educação também incorporam outros personagens do circo.
Somos domadores de feras quando enfrentamos situações de indisciplina de alunos e de falta de conhecimentos e educação de alguns pais. Somos malabaristas quando sobrevivemos com o precário salário e falta de materiais didáticos.
Somos palhaços quando fazemos estripulia e tratamos o processo de ensino aprendizado brincando, mas sem deixar de lado a seriedade e a importância da educação. Apesar de sermos tratados de forma pejorativa por alguns, principalmente a classe política, não devemos esmorecer e deixar de mostrar a nossa alegria no ato de ensinar.
Buscando o significado pejorativo da palavra palhaço: pessoa que não é possível levar a sério, pessoa que muda constantemente de opinião; vejo que está se encaixando direito em outra profissão a de políticos.
Resta-nos comemorar o dia do circo com a alegria, confiabilidade, determinação e seriedade dos palhaços da educação e deixando o significado da forma pejorativa para os palhaços da política.

Lembrando que o dia internacional do Circo é 15 de Março, mas no Brasil comemora dia 27 de Março, numa homenagem ao palhaço brasileiro Piolin, que nasceu nessa data, no ano de 1897.

Valter Figueira

20.2.17

Novo


Estou só


Estou só numa multidão apressada
que passam e nem olham para trás
que sonham e buscam caminhar
entre o vento e o tempo.
Estou só numa multidão de pensamentos
que a cada segundo me deixam a mercê
do que ser e que rumo tomar
entre a alegria e o esquecimento.
Estou só numa encruzilhada escura
só sei tatear as labaredas de um pesadelo
que tonteia e quer me derrubar
entre o sorriso e a lágrima.
Estou só num emaranhados de afazeres
que não sei como começar e sonho em segui-los
que tristemente quer me alcançar
entre o caminho e a vida.
Valter Figueira

11.9.16

Tento

Tento encontrar algo
para findar a dor
que deveras sinto
pelo abandono
pelo olhar de desprezo
pelo abraço ao longe
pelo grito temido
pelo gemido contido.
Procuro amenizar
a dor da saudade.
Procuro entender
a ruptura brusca.
Procuro entender
a falta de sonhos,
o desaparecimento
da poesia.
Procuro entender
a minha escolha,
a minha insanidade
a minha proeza
a minha destreza
a minha verdade.

7.9.16

Procuro repostas

Procuro repostas
para as minhas dúvidas
o vento está mudo
o tempo é meu inimigo
a espera é dolorosa. 
Faço perguntas ao além
recebo pontos de interrogação,
continuo minha busca
tudo parece ser em vão.
não quero fazer o que todos fazem
não quero os mesmos erros
quero aprender com meus tropeços
com ou sem respostas.
O vento continua mudo.

7.8.16

Vote em mim 2



Caros amigos, sou candidato a reeleição para o cargo de vereador, venho aqui pedir o seu voto para continuar lutando por vocês. Eis o que fiz durante esses quatro anos que passou:
- Na campanha passada não contei nenhuma mentira, disse que lutaria pelo povo e realmente fiz;
- Fui o vereador que mais visitei as comunidades fui tomar um cafezinho em todas;
- Sempre participo das festividades, você deve ter visto, vou as festas e patrocínio elas. Quando chego numa festa pago uma cervejinha ao pessoal do som para eles falar meu nome. Sou sempre lembrado.
- Fui a quase todos os velórios, participar de velório é importante, e outra tenho prova que em todos que fui eu chorei com a família. Os velórios em que não pude ir enviei minha esposa e ela também chora em velório, muito mais do que eu.
-Festividades nas escolas eu sempre participo. Dou sempre um brinde para que as nossas escolas possam arrecadar dinheiro, fazer uma rifa e assim comprar o que está faltando.
- Fui o vereador mais atuante: indiquei 20 projetos de noção de aplausos. O povo fica contente com uma noção de aplauso. É uma ação importante para a população, fico emocionado quando o povo que vão a câmara municipal aplaude de pé. O mais emocionante é saber que foi indicação minha.
- Sempre que tem uma família passando necessidade eu vou a casa de meus compadres e assim faço uma cesta básica para essa família. Isso é um projeto social.
- Vou sempre aos bailes dos aposentados. Danço com a senhoras que estão sozinhas. Elas ficam contentes e sempre votam em mim.
- Sempre que encontro amigos nos botecos pago caipirinhas para eles é emocionante ver a alegria nos rostos deles, é o vereador junto com o povo.
- Indiquei também que a prefeitura pintasse os troncos das árvores nas avenidas e praças.
- Participo de todos os eventos realizados pela prefeitura, os funcionários públicos adoram quando um vereador participa. É o vereador presente apoiando o funcionarismo público.
- Votei a favor em todos os projetos apresentados pelo prefeito. É o vereador trabalhando com o prefeito.
- No dia do professor envio sempre uma mensagem para eles. Acredito que o trabalho do professor é muito importante. É o vereador  apoiando a educação.
- Sempre vou aos campeonatos de futebol, sento no meio do povo, patrocínio premiações. É o vereador apoiando o esporte.
Bem caro amigo, isso é um pouco do que fiz e continuarei fazendo se for reeleito, é claro que conto com seu voto. Sou um vereador que sempre está apoiando o povo.


Valter Figueira -  Professor, poeta e prosador.

28.7.16

Carlinda: uma incógnita



Quando mudei para Carlinda busquei algumas informações sobre o município, principalmente sobre a origem do nome da cidade. Quando fui orientador de um grupo de graduação NEAD-UFMT, alguns graduandos apresentaram na disciplina de história do Mato Grosso, alguns momentos históricos do município. Ao acompanhar os levantamentos dos dados para a constituição dos PPPs das escolas municipais fiquei conhecendo um pouco mais da construção histórica de nossa cidade. E assim fui conhecendo e hoje fazendo parte da história de Carlinda. Mas para aprofundar e conhecer mais, faltava alguns dados. Quem foi Carlinda?
Conforme algumas publicações que foram adotadas como reais constam que: O capitão Antonio Lourenço Telles Pires chefe de uma comissão responsável de realizar um levantamento geográfico navegando o Rio São Manoel, quando passou pela foz do rio o batizou de Carlinda em homenagem a sua esposa a Sr. Carlinda Lourenço Telles Pires, pela data da passagem coincidir com o seu aniversário. Logo após chegando próximo a foz do Rio Paranaíta sofreu um acidente vindo a falecer, e então deram ao rio o seu nome. Eu queria saber mais, tanto que fiz um poema falando da proeza do Capitão e de seu amor ao homenagear sua amada. Mas quem foi Carlinda, quando nasceu?
Utilizando a internet como caminho para a pesquisa, no site da Biblioteca Nacional encontrei digitalizado os boletins da Sociedade Geográfica do Rio de Janeiro, órgão que organizou e patrocinou a comissão do Capitão Telles Pires. Lendo o seu histórico e o relatório apresentado pelo 2º Tenente Oscar de Oliveira Miranda descobri que: Antonio Lourenço Telles Pires nasceu em Porto Alegre de 10 de Agosto de 1860 e faleceu em 02 de Maio de 1890. O Capitão não faleceu vítima dos acidentes, foram dois acidentes, na ocasião do segundo o Cap. Telles Pires já apresentava fortes sinais de febre palustre (malária). Tanto o Capitão como o Sr. Oscar caíram doentes e apenas o Sr. Oscar sobreviveu. O seu corpo foi enterrado num local chamado de Salto Tavares, conforme o mapa apresentado pela instituição fica depois das corredeiras conhecida por Sete Quedas. O que significa que o local será alagado devido a barragem da Usina Hidrelétrica. O Tenente Oscar de Oliveira mais alguns sobreviventes aguardou cerca de 90 dias até serem resgatado pelo Capitão José Soares de Souza Fogo que veio pelo rio Tapajós.
As anotações do Capitão Telles Pires foram todas perdidas nos acidentes, e não há nenhuma citação sobre a nomeação dos acidentes geográficos. Assim fica difícil confirmar o nome de Carlinda dado ao rio. No Boletim pesquisado há um pedido de pensão a família citando a viúva e filhos, mas não cita os nomes. Nos documentos do Senado Federal há uma solicitação de pensão a viúva do Capitão Telles Pires só que cita como nome da esposa a Sra. Adelaide de Paiva Telles Pires. Então se a esposa do Capitão se chamava Adelaide. Quem foi Carlinda? Pesquisando num site de genealogia encontrei uma citação do Capitão Telles Pires e esposa Adelaide e um filho Álvaro. Novamente fica a pergunta no ar. Quem foi Carlinda? Pode ser um apelido da mãe que se chamava Francisca Carolina Telles Pires. O que posso dizer é que ainda não encontrei, continuarei procurando.
Outra informação que acredito ser importante é que o Rio São Manoel não passou a ser chamado de Rio Telles Pires logo após a morte do Capitão. Não há citação sobre a mudança de nome. Em 1915 a comissão Rondon navegou o rio para as confirmações da carta geográfica. Essa comissão foi comandada por Antonio Pyrineus de Souza. O marechal Rondon estada em outro rio, talvez o Juruena. O marechal Rondon ficou conhecido por renomear os acidentes geográficos, mesmos os que já estavam nomeados. Ele rebatizava dando nomes de filhas, filhos e genros. Será que foi ele que nomeou o rio Carlinda? Foi em seu relatório e mapa que apareceu o rio Telles Pires. A única citação do nome Carlinda que encontrei foi num mapa feito pela equipe do Rondon e apresentado em 1942, está denominando uma ilha que fica próximo a foz do Ribeirão Rochedo. Ainda não aparece o rio Carlinda. O salto Tavares mudou o nome para Cachoeira Oscar Miranda e dessa vez aparece depois da foz do Rio Paranaíta. Buscando informações genealógicas do Marechal Rondon não encontrei o nome Carlinda. Fica ainda essa dúvida, quem foi Carlinda? Sabendo que a equipe de Rondon fez o mapa a partir das anotações cartográficas do Capitão Pyrineus, é claro que ele foi nomeando ilhas, rios, cachoeiras etc.
Em resumo descobrimos que Carlinda não foi esposa do Capitão Telles Pires; que o nome foi dado primeiro a uma ilha e depois ao rio; que o nome da cidade de Paranaíta veio do rio do mesmo nome e que em 1942 já tinha esse nome, então não foi em homenagem aos paranaenses que colonizaram o local. Mas infelizmente não se descobriu quem foi Carlinda. Fica então uma dúvida que continuarei procurando.


Valter Figueira – Professor, poeta e prosador. Reside em Carlinda.