4.10.17

Prosa e poesia

Seguindo nossa caminhada literária pelos poetas haicaístas, o espaço de hoje é dedicado a poetisa Helena Kolody, paranaense, professora, foi a primeira mulher brasileira a utilizar a estrutura haicai em suas poesias.
Helena Kolody (1912-2004) considerada uma das maiores representantes literárias do Estado do Paraná. Nasceu na cidade de Cruz Machado, no Paraná, no dia 12 de outubro de 1912. Com 12 anos escreveu seus primeiros versos. Em 1928, com 16 anos, tem seu poema “A Lágrima” pulicado na revista “Marinha”, de Paranaguá, a maior divulgadora de sua obra. Em 1941, Helena Kolody publicou seu primeiro livro “Paisagem Interior”. Em 1941, escreveu seus primeiros haicais, sendo criticada, por não ter rima, mas continuou publicando essa forma de poesia. Grande parte de sua vida foi dedicada à poesia. Faleceu em Curitiba, Paraná, no dia 15 de fevereiro de 2004.
Alguns haicais de Helena Kolody:



A flecha de sol
pinta estrelas na vidraça.
Despede-se o dia.

Bate breve o gongo.
Na amplidão do templo ecoa
o som lento e longo.

Corrida no parque.
O menino inválido
aplaude os atletas.

Da estátua de areia
nada restará
depois da maré cheia

Depois será sempre agora
viajarei pelas galáxias
universo afora

Dormem as papoulas
a lua sonha no céu
vigiam os grilos

Em líquidos caules,
irisadas flores d'água
cintilam ao sol.

Festa das Lanternas!
Os ipês estão luzindo
De globos cor-de-ouro.

Luar nos cabelos.
Constelações na memória.
Orvalho no olhar.

Manhã nas flores do cardo
leve poeira de orvalho
manhã no deserto

Nas flores do cardo,
leve poeira de orvalho.
Manhã no deserto.


Nas mãos inspiradas
nascem antigas palavras
com novo matiz.

O brilho da lâmpada,
no interior da morada,
empalidece as estrelas.

Os olhos do amado
esqueceram-se nos teus.
Perdidos em sonho

Para quem viaja
ao encontro do sol
é sempre madrugada.

Puseste a gaiola
suspensa dum ramo em flor
num dia de sol

Pintou estrelas no muro
e teve o céu
ao alcance das mãos.

Será sempre agora.
Viajarei pelas galáxias
universo afora.

Tão longa a jornada!
E a gente cai, de repente,
No abismo do nada.

Trêmula gota de orvalho
Presa na teia de aranha,
rebrilhando como estrela.

Um sabiá cantou.
Longe, dançou o arvoredo.
Choveram saudades.

Voo solitário
na fímbria da noite
em busca do pouso distante



13.6.17

Caminhada


Você caminhou lentamente
contra o vento, contra o tempo
você caminhou lentamente
sem rumo e sem lamento.
Você caminhou e não pestanejou
não olhou em volta e nem retornou
não cumprimentou os caminhantes
disseram: "Boa sorte, vá em frente".
O tempo passou e não te derrubou
os obstáculos foram todos derrotados
não se rendeu as fraquezas do mundo
em seu coração um sentir profundo.
Seus olhos hoje reluz a tristeza
seu rosto já não mostra toda beleza,
seus seios não são mais rijos,
em sua mente só delírios.
Seus lábios não são mais mel,
sua voz já não diz mais nada,
seus desejos são portas fechadas,
e seu olhar só mira o céu.
Valter Figueira
Do livro "Doces Encantos"

15.3.17

Dia do Circo



Dia 15 de março é o dia internacional do circo. Por representar uma manifestação cultural e fazer parte da vida de muitas pessoas, é raro uma pessoa que nunca esteve num circo, os profissionais da educação de uma forma ou de outra fazem alguma atividade com os alunos para comemorar esta data.
O personagem mais lembrado do circo é o palhaço por isso e por ser o mais fácil de personalização pelas crianças é que elas viram palhaço por um dia. Mas devemos lembrar que os profissionais da educação também incorporam outros personagens do circo.
Somos domadores de feras quando enfrentamos situações de indisciplina de alunos e de falta de conhecimentos e educação de alguns pais. Somos malabaristas quando sobrevivemos com o precário salário e falta de materiais didáticos.
Somos palhaços quando fazemos estripulia e tratamos o processo de ensino aprendizado brincando, mas sem deixar de lado a seriedade e a importância da educação. Apesar de sermos tratados de forma pejorativa por alguns, principalmente a classe política, não devemos esmorecer e deixar de mostrar a nossa alegria no ato de ensinar.
Buscando o significado pejorativo da palavra palhaço: pessoa que não é possível levar a sério, pessoa que muda constantemente de opinião; vejo que está se encaixando direito em outra profissão a de políticos.
Resta-nos comemorar o dia do circo com a alegria, confiabilidade, determinação e seriedade dos palhaços da educação e deixando o significado da forma pejorativa para os palhaços da política.

Lembrando que o dia internacional do Circo é 15 de Março, mas no Brasil comemora dia 27 de Março, numa homenagem ao palhaço brasileiro Piolin, que nasceu nessa data, no ano de 1897.

Valter Figueira

20.2.17

Novo


Estou só


Estou só numa multidão apressada
que passam e nem olham para trás
que sonham e buscam caminhar
entre o vento e o tempo.
Estou só numa multidão de pensamentos
que a cada segundo me deixam a mercê
do que ser e que rumo tomar
entre a alegria e o esquecimento.
Estou só numa encruzilhada escura
só sei tatear as labaredas de um pesadelo
que tonteia e quer me derrubar
entre o sorriso e a lágrima.
Estou só num emaranhados de afazeres
que não sei como começar e sonho em segui-los
que tristemente quer me alcançar
entre o caminho e a vida.
Valter Figueira

11.9.16

Tento

Tento encontrar algo
para findar a dor
que deveras sinto
pelo abandono
pelo olhar de desprezo
pelo abraço ao longe
pelo grito temido
pelo gemido contido.
Procuro amenizar
a dor da saudade.
Procuro entender
a ruptura brusca.
Procuro entender
a falta de sonhos,
o desaparecimento
da poesia.
Procuro entender
a minha escolha,
a minha insanidade
a minha proeza
a minha destreza
a minha verdade.

7.9.16

Procuro repostas

Procuro repostas
para as minhas dúvidas
o vento está mudo
o tempo é meu inimigo
a espera é dolorosa. 
Faço perguntas ao além
recebo pontos de interrogação,
continuo minha busca
tudo parece ser em vão.
não quero fazer o que todos fazem
não quero os mesmos erros
quero aprender com meus tropeços
com ou sem respostas.
O vento continua mudo.

7.8.16

Vote em mim 2



Caros amigos, sou candidato a reeleição para o cargo de vereador, venho aqui pedir o seu voto para continuar lutando por vocês. Eis o que fiz durante esses quatro anos que passou:
- Na campanha passada não contei nenhuma mentira, disse que lutaria pelo povo e realmente fiz;
- Fui o vereador que mais visitei as comunidades fui tomar um cafezinho em todas;
- Sempre participo das festividades, você deve ter visto, vou as festas e patrocínio elas. Quando chego numa festa pago uma cervejinha ao pessoal do som para eles falar meu nome. Sou sempre lembrado.
- Fui a quase todos os velórios, participar de velório é importante, e outra tenho prova que em todos que fui eu chorei com a família. Os velórios em que não pude ir enviei minha esposa e ela também chora em velório, muito mais do que eu.
-Festividades nas escolas eu sempre participo. Dou sempre um brinde para que as nossas escolas possam arrecadar dinheiro, fazer uma rifa e assim comprar o que está faltando.
- Fui o vereador mais atuante: indiquei 20 projetos de noção de aplausos. O povo fica contente com uma noção de aplauso. É uma ação importante para a população, fico emocionado quando o povo que vão a câmara municipal aplaude de pé. O mais emocionante é saber que foi indicação minha.
- Sempre que tem uma família passando necessidade eu vou a casa de meus compadres e assim faço uma cesta básica para essa família. Isso é um projeto social.
- Vou sempre aos bailes dos aposentados. Danço com a senhoras que estão sozinhas. Elas ficam contentes e sempre votam em mim.
- Sempre que encontro amigos nos botecos pago caipirinhas para eles é emocionante ver a alegria nos rostos deles, é o vereador junto com o povo.
- Indiquei também que a prefeitura pintasse os troncos das árvores nas avenidas e praças.
- Participo de todos os eventos realizados pela prefeitura, os funcionários públicos adoram quando um vereador participa. É o vereador presente apoiando o funcionarismo público.
- Votei a favor em todos os projetos apresentados pelo prefeito. É o vereador trabalhando com o prefeito.
- No dia do professor envio sempre uma mensagem para eles. Acredito que o trabalho do professor é muito importante. É o vereador  apoiando a educação.
- Sempre vou aos campeonatos de futebol, sento no meio do povo, patrocínio premiações. É o vereador apoiando o esporte.
Bem caro amigo, isso é um pouco do que fiz e continuarei fazendo se for reeleito, é claro que conto com seu voto. Sou um vereador que sempre está apoiando o povo.


Valter Figueira -  Professor, poeta e prosador.

28.7.16

Carlinda: uma incógnita



Quando mudei para Carlinda busquei algumas informações sobre o município, principalmente sobre a origem do nome da cidade. Quando fui orientador de um grupo de graduação NEAD-UFMT, alguns graduandos apresentaram na disciplina de história do Mato Grosso, alguns momentos históricos do município. Ao acompanhar os levantamentos dos dados para a constituição dos PPPs das escolas municipais fiquei conhecendo um pouco mais da construção histórica de nossa cidade. E assim fui conhecendo e hoje fazendo parte da história de Carlinda. Mas para aprofundar e conhecer mais, faltava alguns dados. Quem foi Carlinda?
Conforme algumas publicações que foram adotadas como reais constam que: O capitão Antonio Lourenço Telles Pires chefe de uma comissão responsável de realizar um levantamento geográfico navegando o Rio São Manoel, quando passou pela foz do rio o batizou de Carlinda em homenagem a sua esposa a Sr. Carlinda Lourenço Telles Pires, pela data da passagem coincidir com o seu aniversário. Logo após chegando próximo a foz do Rio Paranaíta sofreu um acidente vindo a falecer, e então deram ao rio o seu nome. Eu queria saber mais, tanto que fiz um poema falando da proeza do Capitão e de seu amor ao homenagear sua amada. Mas quem foi Carlinda, quando nasceu?
Utilizando a internet como caminho para a pesquisa, no site da Biblioteca Nacional encontrei digitalizado os boletins da Sociedade Geográfica do Rio de Janeiro, órgão que organizou e patrocinou a comissão do Capitão Telles Pires. Lendo o seu histórico e o relatório apresentado pelo 2º Tenente Oscar de Oliveira Miranda descobri que: Antonio Lourenço Telles Pires nasceu em Porto Alegre de 10 de Agosto de 1860 e faleceu em 02 de Maio de 1890. O Capitão não faleceu vítima dos acidentes, foram dois acidentes, na ocasião do segundo o Cap. Telles Pires já apresentava fortes sinais de febre palustre (malária). Tanto o Capitão como o Sr. Oscar caíram doentes e apenas o Sr. Oscar sobreviveu. O seu corpo foi enterrado num local chamado de Salto Tavares, conforme o mapa apresentado pela instituição fica depois das corredeiras conhecida por Sete Quedas. O que significa que o local será alagado devido a barragem da Usina Hidrelétrica. O Tenente Oscar de Oliveira mais alguns sobreviventes aguardou cerca de 90 dias até serem resgatado pelo Capitão José Soares de Souza Fogo que veio pelo rio Tapajós.
As anotações do Capitão Telles Pires foram todas perdidas nos acidentes, e não há nenhuma citação sobre a nomeação dos acidentes geográficos. Assim fica difícil confirmar o nome de Carlinda dado ao rio. No Boletim pesquisado há um pedido de pensão a família citando a viúva e filhos, mas não cita os nomes. Nos documentos do Senado Federal há uma solicitação de pensão a viúva do Capitão Telles Pires só que cita como nome da esposa a Sra. Adelaide de Paiva Telles Pires. Então se a esposa do Capitão se chamava Adelaide. Quem foi Carlinda? Pesquisando num site de genealogia encontrei uma citação do Capitão Telles Pires e esposa Adelaide e um filho Álvaro. Novamente fica a pergunta no ar. Quem foi Carlinda? Pode ser um apelido da mãe que se chamava Francisca Carolina Telles Pires. O que posso dizer é que ainda não encontrei, continuarei procurando.
Outra informação que acredito ser importante é que o Rio São Manoel não passou a ser chamado de Rio Telles Pires logo após a morte do Capitão. Não há citação sobre a mudança de nome. Em 1915 a comissão Rondon navegou o rio para as confirmações da carta geográfica. Essa comissão foi comandada por Antonio Pyrineus de Souza. O marechal Rondon estada em outro rio, talvez o Juruena. O marechal Rondon ficou conhecido por renomear os acidentes geográficos, mesmos os que já estavam nomeados. Ele rebatizava dando nomes de filhas, filhos e genros. Será que foi ele que nomeou o rio Carlinda? Foi em seu relatório e mapa que apareceu o rio Telles Pires. A única citação do nome Carlinda que encontrei foi num mapa feito pela equipe do Rondon e apresentado em 1942, está denominando uma ilha que fica próximo a foz do Ribeirão Rochedo. Ainda não aparece o rio Carlinda. O salto Tavares mudou o nome para Cachoeira Oscar Miranda e dessa vez aparece depois da foz do Rio Paranaíta. Buscando informações genealógicas do Marechal Rondon não encontrei o nome Carlinda. Fica ainda essa dúvida, quem foi Carlinda? Sabendo que a equipe de Rondon fez o mapa a partir das anotações cartográficas do Capitão Pyrineus, é claro que ele foi nomeando ilhas, rios, cachoeiras etc.
Em resumo descobrimos que Carlinda não foi esposa do Capitão Telles Pires; que o nome foi dado primeiro a uma ilha e depois ao rio; que o nome da cidade de Paranaíta veio do rio do mesmo nome e que em 1942 já tinha esse nome, então não foi em homenagem aos paranaenses que colonizaram o local. Mas infelizmente não se descobriu quem foi Carlinda. Fica então uma dúvida que continuarei procurando.


Valter Figueira – Professor, poeta e prosador. Reside em Carlinda.

11.7.16

Vote em mim



Quando deparamos com o processo eleitoral, ou melhor com a época de campanha é que procuramos saber o que de fato fez aquele candidato que, não votamos nele e nem entendemos como ele foi eleito. É claro que sabemos como ele foi eleito, afinal existe gente que vota em alguns tipos que realmente dá vergonha de ser representado pelo sujeito.
Para me explicar como é o processo, ou melhor, para exemplificar que nos cargos eletivos existe alguns que não poderia estar lá. Entrevistei o Sr. X, legislador e candidato a um novo mandato. Vamos a entrevista.
Eu: Gostaria que o Sr. explicasse como foi o seu dia de trabalho hoje.
Sr. X: Me chama de Excelência, afinal de contas você está falando com uma autoridade.
Eu: Tudo bem Excelência, como estou lhe entrevistando para um artigo sobre o trabalho de um legislador me conte como foi o seu dia hoje.
Sr. X: Bem começamos com uma oração, porque é importante glorificar a Deus e agradecer por tudo que conquistamos. Tivemos uma reunião com secretários e depois com os meus correligionários.
Eu: Excelência, o Sr. está sendo acusado de desviar 50 por cento da verba para a construção de uma ponte. Que inclusive está com problema estrutural.
Sr. X: Bem uma parte foi direcionado para a obra de Deus, Ele sabe o quanto oramos e o quanto fazemos para Sua obra. A ponte está bem, todos os dias oramos para que nada demais aconteça com ela.
Eu: O Sr. Está informado que hoje, com a passagem de um caminhão carregado de madeira ela trincou.
Sr. X: Quem foi o pecador que passou por lá e permitiu que ela trincasse? Só pode ser um filho do diabo. Uma pessoa carregada de pecados.
Eu: Olha Sr. X, foi o seu irmão dirigindo um caminhão vindo de sua fazenda.
Sr. X: Então deve ser esse povo pecador da cidade que não ora e não pratica a vontade de Deus.
Eu: Mas Sr. Excelência, a ponte está caindo e vai acabar matando pessoas, tudo porque usaram material inferior, porque a verba foi desviada.
Sr. X: Lembre e escreva aí. Desviada para uma obra de Deus. Deus protegerá as pessoas dessa cidade.
Eu. Excelência, mas estão dizendo que o dinheiro desviado foi para construir uma piscina e churrasqueira em sua mansão.
Sr. X. Então, minha casa também é uma obra de Deus. Afinal sou o mensageiro de Deus.
Eu: O sr. Não acha que o senhor é muito desonesto para ser mensageiro de Deus.
Sr. X: Vamos terminar essa entrevista.
Eu: mas o senhor é candidato. Fale como será sua campanha.
Sr. X: O povo sabe quem eu sou. Sabe que metade do meu salário vai para a igreja e para as cestas básicas que a igreja distribui.
Eu: Mas Excelência, distribuir cestas básicas é compra de votos.
Sr. X: Você, rapazinho insolente, não entende de política.


O sujeito, homem de Deus, construtor da obra divina, fechou o semblante e ameaçou jogar um cinzeiro em mim. Ao sair, contemplei a fachada de sua casa e imaginei o quanto de dízimo e desvio de verbas foi empregado ali. Ao lado do portão um cartaz com o sujeito com cara de pedinte e a frase vote em mim.

30.5.16

Elizabeth. Simplesmente Elizabeth.



Eu não encontrei um título mais chamativo para o meu texto. Encontrei sim. Poderia nomear de “Um exemplo de vida” ou “ Um exemplo de superação”. Ficaria muito comum e chamaria mais a atenção. Eu não quero leitores em busca de um texto de autoajuda e sim leitores de uma história real e brilhante. A história de Dona Elizabeth.
Nos meus primeiros dias como diretor da Escola Monteiro Lobato, quando tudo estava entrando nos eixos, aparece uma senhora demonstrando humildade, mas com um olhar jovial e encantador querendo estudar. Logo lhe informei que o EJA (educação de jovens e adultos) não iria funcionar nesse ano, ela simplesmente me disse que estudaria com as crianças. Para mim e para os professores era uma novidade, um desafio. Eu não acreditava que ela engajaria nos estudos e desse continuidade. Agora, quase no meio do ano ela continua firme, forte e feliz por estar aprendendo a ler e escrever.
A senhora Elizabeth Chaves dos Santos, casada com o senhor José Vicente dos Santos, agricultores, mora na MT 208, Sítio São José. Nasceu em 18 de Outubro de 1950 na cidade de Poções no Estado da Bahia. Criança ainda foi para o Paraná onde cresceu e frequentou muito pouco a escola. Trabalhou muito, quando criança no plantio e colheita do algodão, o que dificultava a continuidade dos estudos. No Paraná conheceu José que o acompanha até hoje. Com o José foi para Alagoas, algum tempo depois retornaram para o Estado de São Paulo e de lá para Carlinda. Chegou em Carlinda em 1986 e desde essa época, tirando alguns intervalos que foi para Alta Floresta, morou no sítio São José. Nessa caminhada da vida ela declara que teve mais momentos de felicidades do que de tristeza. E sua maior alegria é poder contar sempre com seus familiares e ao mesmo tempo, o que deixa triste é que uns dos filhos não estar mais com ela, faleceu num acidente de trânsito, e recentemente perdeu uma irmã que faleceu no estado de São Paulo.
Dona Elizabeth disse que procurou a escola porque queria aprender mais e se sentia constrangida por não saber ler. O pouco que estudou antes não deu bagagem suficiente para ler da forma que queria. Gosta de estudar com as crianças e de certa forma elas a incentiva a continuar sempre. Não sente vergonha, as crianças respeitam e até ajudam. E com um sorriso no rosto dá um recado para os “velhos” e para os jovens também dizendo que é bom saber ler e escrever e que é muito gratificante fazer parte da escola que é sua segunda casa.

Valter Figueira


21.4.16

Papo de Boteco



Numa quarta-feira quente, depois do expediente, passei no bar da esquina para tomar uma água tônica com gelo. Estava pensando em como resolver os percalços da vida e observando os diversos tipos físicos que frequentam o ambiente, de repente um vereador. Isso mesmo um vereador deu um toque em meu ombro e sentou na cadeira que estava vazia. Pensei porque fui deixar uma cadeira vazia ali do meu lado. Cumprimentou eu em particular e os demais por atacado. Pediu uma pinga. Uma pinga? Eu que até então acreditava que ele era evangélico. Mas tudo bem. E começou o papo.
“Professor fiquei sabendo que o senhor está organizando esse negócio de Plano Municipal de Educação, não é mesmo? Então é que tem uma coisa lá que quero discutir, esse negócio de gênero, sabe como é né? O pastor da minha igreja, um homem estudado que explica para a gente direitinho a bíblia. Então... ele disse que esse negócio de gênero é do capeta, que vai acabar com a família. Então professor como tá esse negócio”
Fiquei quieto observando o dito autoridade expor seus argumentos e toda a sua sabedoria. Em alguns momentos parece que ia babar e jogar para fora toda pinga que tomou. Mas não. Ainda no meio da conversa pediu mais uma dose e tentou explicar.
“Sabe! O pastor não sabe que eu tomo umas pingas. Mas sabe como é né? A gente precisa de uma igreja e nessa o pastor me ajuda a convencer os eleitores. E depois só tem eu de vereador lá. Sabe como é? O vereador tem que estar onde o povo está. Principalmente em velório, lá o povo vê a gente como humano e até dá para ganhar alguns votos. Então professor? Esse negócio de gênero como é que é?”  
Fiquei imaginando uma maneira de explicar a essa digníssima autoridade para que ele entenda. Foi então que saiu.
“Bem vereador, não se preocupe, pois contratamos um filólogo para analisar o texto do plano e ele trocou todas as palavras gêneros por sinônimos. E mais ainda ele trocou também as palavras generoso, general, generalidade e mais algumas para não provocar confusão”
“Nossa professor, o senhor é inteligente mesmo. Sinônimo o pastor não falou nada não. Acho que sinônimo tá bom né? Se fosse coisa ruim o pastor tinha falado. E esse cara que você disse que contratou é de Deus?”
“É de Deus sim vereador, ele é daquela igreja ali da outra esquina. Primo do pastor. Ele estava agora pouco aqui. Tomou uma cerveja e foi embora. É fácil encontrar ele, sempre está com um livro de filologia na mão. É para usar o português corretamente.”
“Que bom professor. Eu estava preocupado. Já pensou se a gente aprova esse plano e depois esse gênero destrói a família de nossa cidade. O pastor não gosta mas eu tenho duas famílias. Ainda bem que nem todos os eleitores sabem disso. Mas sabe como é né? A gente vai futricando aqui e ali e as coisas acontecem.”
Que hipocrisia. Que ignorância. Que analfabetismo. Mas a vida é assim, temos os legisladores que elegemos.
“Que bom não é professor. Conversando a gente entende. Que bom que o senhor explicou tudo. Mas professor estou indo porque ainda tenho um velório para ir. Você sabe né? Se vereador não vai a velório pega mal.”
Ele se despediu e foi. Ainda bem. Espero que a história do filólogo o tenha convencido. Ou ele por não saber o que é um filólogo, ficou com vergonha de dizer e aceitou sem questionar. Fiquei indignado e imaginando que pessoas votam num analfabeto para ser legislador. Para aliviar a indignação e raiva, tomei uma cerveja e fui embora.
Valter Figueira

Professor, poeta e prosador. Reside em Carlinda-MT.

22.1.16

dor


Dor

Queria ser poeta
para fingir que não é dor
a dor que sinto.
A dor da impotência
diante de um mundo que quer
respostas urgentes aos seus problemas,
A dor da perca da senilidade
diante tantas ocasiões de erros e acertos.
Vou fingir que não é dor
a dor que sinto
para que o caminhar seja menos penoso,
para que as lágrimas não caiam.
Vou fingir que não é dor a dor que sinto.

7.12.15

Vale a pena ler





George Steiner & Cecile Ladjali
Lisboa: Dom Quixote, 2005
Cécile Ladjali é uma escritora e professora ainda jovem, que tem leccionado francês em escolas suburbanas e multiétnicas da grande Paris, onde, em geral, ninguém deseja ser colocado; George Steiner é um crítico literário e filósofo, professor em universidades com prestígio – Oxford, Harvard, Cambridge. Ladjali, ao que parece, contacta entusiasmada com os seus inquietos alunos adolescentes, quase todos socialmente desfavorecidos; Steiner, define-se como um leitor solitário, não sendo difícil imaginá-lo, de lápis na mão, em diálogo com os clássicos, contactando esporadicamente com estudantes de elite e outros intelectuais de estatura internacional.
O que levou, então, estas duas pessoas que se movimentam em universos tão distintos, a publicar em conjunto, em meados de 2003, um livro subordinado ao título Éloge de la transmission: le maître et l’elève? A resposta é muito simples: ambos pensam que a missão fundamental de quem ensina é ajudar os alunos a pensarem por si próprios, sendo, para isso, necessário, entre outras coisas, que contactem com a literatura e se iniciem na criação literária.

Um incauto dirá que esta preocupação nada tem de extraordinário: não é aceitável como, até, louvável. Mas tem e não é uma eventualidade do presente. Para não recuarmos muito no tempo, situamos nas décadas de sessenta e setenta e seguintes a polémica que rodeia essa preocupação, a saber: devemos concentrar-nos no contexto vivencial dos alunos para delinearmos o curriculum, que deve estar de acordo com esse contexto, de modo que os alunos venham a integrar-se nele? Ou devemos partir do princípio que os alunos podem interessar-se por outros contextos além do seu, devendo o curriculum ser delineado em função daquilo que intrinsecamente possui um valor real para o desenvolvimento da humanidade e de cada pessoa?
Ao contrário da primeira, esta segunda alternativa assenta no pressuposto de que os conteúdos a ensinar não têm todos o mesmo valor: uns valem mais que outros. Nega, claro está, o relativismo cultural, tão acarinhado pelas correntes pós-modernas, relativismo que, na óptica de muitos, prevalece nos actuais sistemas educativos ocidentais com consequências devastadoras para as novas gerações, sobretudo para os sujeitos mais desfavorecidos sob o ponto de vista social, porquanto ficam praticamente impossibilitados de contactar com o que se entende não ser “da sua cultura” e, em consequência, num plano agravado de desigualdade de oportunidades, no que concerne tanto ao seu percurso escolar, como aos seus percursos pessoal e profissional.
Arriscando-se a serem considerados elitistas (pois quando se trata de populações das periferias e - muito importante - pobres, é comum evocar-se, como salienta Fernando Savater, o “respeito pelas origens”, só sendo lícito ensinar no estreito quadro dessas origens), Steiner e Ladjali afirmam claramente a sua posição: conviver desde cedo com Flaubert, Bruno, Goethe, Proust ou Wilde proporciona a alegria de aprender e de criar. E é essencialmente deste assunto que falam no presente livro que as Publicações Dom Quixote, em boa hora, decidiu publicar entre nós, em 2005.
Passemos, então, à apresentação: esta é uma obra de reduzidas dimensões (tem pouco mais de cem páginas), mas, não obstante, expõe e discute profundamente, numa escrita apelativa que prima pela clareza, ideias e práticas educativas, numa conjugação pouco comum. Após um prefácio, em forma de diário, redigido por Ladjali, o livro completa-se com diálogos, ou entrevistas, entre os autores, ocorridas no programa de rádio France Culture. São sete esses diálogos: Elogio da dificuldade, Criar na escola, Gramática, O professor, Os mestres, Os clássicos e Na turma.
Logo nas primeiras páginas, somos informados que a professora Ladjali, além de proporcionar leituras que os seus alunos do secundário provavelmente nunca fariam se não andassem na escola – eis uma mais valia da escola –, levou muitos deles (não todos) a escrever sonetos e uma peça de teatro. Os trabalhos, que as figuras ilustram, foram dignamente apresentados ao público: os sonetos em forma de livro, Murmures, com um prefácio de Steiner; a peça, Tohu-Bohu, encenada e representada.
Ficamos também a saber que todo este trabalho foi realizado num clima de grande exigência e esforço, de muitos ensaios e correcções, de grande investimento e alguns desapontamentos, de optimismo doseado com algum cepticismo, mas também de muitos livros distribuídos e alguns perdidos. Este é o risco que se corre quando se fazem, indiscriminadamente, empréstimos de livros, mas é nele que assenta a primeira abordagem metodológica de Ladjali: advogando a imprescindibilidade de "ler muito para escrever", para “entrar no jogo da escrita”, enche malas de livros que leva para as aulas, de modo que os alunos façam escolhas de acordo com as suas capacidades e interesses. Não pode dizer-se, portanto, que estejamos perante uma abordagem pedagógica impositiva, igualitária, cega em relação aos destinatários; pelo contrário, parte deles, centra-se neles, mas com o fito de os conduzir a um outro estádio de desenvolvimento, de lhes proporcionar outros horizontes. A professora, recusa, portanto, o destino ditado pela condição social, ao mesmo tempo que afirma a sua crença numa escola libertadora; ao defender que “os alunos merecem tudo menos a indiferença”, assume uma postura revolucionária, que muitos confundirão com conservadorismo.
Voltando a atenção para Steiner. Ainda que o leitor não encontre neste livro ideias novas, retomará aquelas que, de uma forma brilhante, o autor já expôs em vários dos seus livros e que proporciona uma reflexão sobre práticas pedagógicas. Numa altura em que tanto se elogia essa reflexão, da qual não raras vezes redunda o vazio, a abordagem deste filósofo, ao facultar referenciais de análise, imprime-lhe sentido e consistência. E isto acontece mesmo quando se trata dos dilemas essenciais com os quais os educadores mais atreitos a pensar nos seus desígnios da sua profissão se confrontam: pode a sua acção contrariar a barbárie, o declínio e morte da civilização, o vazio gnoseológico e axiológico ou, tragicamente, isso estará fora do seu alcance, como a história já pareceu provar por diversas vezes?
Quando o livro veio a lume, críticos de várias nacionalidades, nomeadamente, franceses, espanhóis e portugueses, sublinharam que ele consubstanciava um rebelo contra a pedagogia e os seus mentores, inimigos da memorização, da repetição e, em última instância, da “esperança” que Steiner advoga ser pertença de todo o aluno. Subjacente a estas intervenções encontra-se a ideia, lamentavelmente ainda muito corrente, que a pedagogia desvaloriza o saber, sobretudo o saber clássico, erudito, universal, com base na justificação de que a sua transmissão constitui um mecanismo de reprodução social. Trata-se de um equívoco que vale a pena esclarecer: a pedagogia, como ciência, não pode deixar de valorizar o saber e, portanto, uma das grandes preocupações de quem nela labora é, ou deve ser, a sua transmissão.
Em suma, trata-se de um livro admirável, que dá conta duma experiência educativa concreta, pensamos que pouco comum, e que, por isso mesmo, mereceria um estudo pormenorizado, desafio que a ilustre Sorbonne declinou, alegando que “não se preocupava com a pedagogia”. Eis uma atitude que, por amor aos clássicos, mais cedo ou mais tarde, a universidade terá de rever.
Helena Damião

24.8.15

Por que os políticos fazem plástica antes da eleição

                                Avaliar membros de sua espécie é uma tarefa importante para os mamíferos sociais, e eles a executam com eficiência. Acreditando nessa habilidade, o Homo sapiens organizou as democracias baseadas no voto universal. Mas existe um problema. Nosso cérebro e o cérebro dos macacos, que deram origem à espécie humana, foram selecionados durante milhões de anos para avaliar membros de nossa espécie com os quais interagíamos diretamente - indivíduos de nossos bandos ou tribos, cujo comportamento observávamos todos os dias e com quem nos comunicávamos constantemente. É dessa maneira que os machos e as fêmeas dominantes são escolhidos e os paramentos sexuais determinados. Selecionar um líder entre candidatos com os quais nunca interagimos é uma novidade para o cérebro humano, e não é tarefa que ele, mesmo educado, faça com facilidade. Se puder escolher, nosso cérebro prefere utilizar poucas informações obtidas em interações diretas. É por isso que os políticos andam pelas ruas cumprimentando o maior número possível de eleitores. Quando forçado a decidir com base em informações indiretas, os mecanismos utilizados pelo cérebro são primitivos e irracionais. A literatura científica está cheia de estudos que comprovam essa tese, mas um trabalho publicado recentemente demonstra quão primitivo é esse mecanismo.
                      Cientistas suíços selecionaram 57 pares de fotos de candidatos a eleições municipais francesas. Cada par continha uma foto do vencedor e uma do segundo colocado. Os pares foram mostrados para 684 adultos suíços que nunca haviam visto esses políticos. Sem informar quem eram as pessoas e nem mesmo que elas haviam sido candidatas a cargos políticos, os cientistas pediram que os suíços escolhessem o membro do par mais 'competente' e 'confiável'. Em 70% dos casos, o candidato avaliado como mais 'competente' havia sido o candidato eleito pelos franceses. Se adultos sem nenhuma informação além de uma foto fazem a mesma escolha que os eleitores, isso sugere que os mecanismos empregados para fazer a escolha são primitivos, talvez semelhantes aos utilizados pelas crianças. Para a confirmação dessa hipótese, os mesmos pares de fotos foram apresentados a 681 crianças com idade entre cinco e treze anos. As fotos foram mostradas no contexto de um jogo de computador, no qual as crianças deveriam escolher o melhor capitão para um barco que os guiaria em uma viagem perigosa. Os resultados com as crianças foram os mesmos que os obtidos com os adultos: elas escolheram o vencedor das eleições em 71 % dos casos. Isso sugere que os eleitores elegem seus líderes utilizando os mesmos mecanismos que o cérebro de uma criança usa para avaliar o rosto das pessoas.
                        Esse experimento é muito semelhante à maneira como os eleitores brasileiros são apresentados a candidatos ao Legislativo. Uma foto e uma frase. Mas o mais interessante é que esse experimento demonstra de forma científica um fato bastante conhecido dos políticos: a imagem da face, como ela aparece nas propagandas, é a principal fonte de informação utilizada por nosso cérebro quando ele é obrigado a fazer escolhas sem os dados da interação direta com o candidato. Não é de espantar que grande parte dos políticos se submeta a operações plásticas com o objetivo de se tornarem mais "competentes".
Este Texto faz parte do livro: “ A longa marcha dos Grilos Canibais”


 Fernando Reinach