Quando
eu tinha 10 anos eu desenvolvi a capacidade de voar. Principalmente nas
madrugadas durante o sono REM, aquele mais profundo em que os sonhos parecem
realidade de tão nítidos. Mesmo sendo noite ao voar tudo parecia tão claro como
o dia, e eu poderia ver acima das casas e das árvores. Eu subia na cumeeira da
casa, coisa que não entendia como subia até lá. Acho que dava um salto, igual
ao super homem, me ajeitava no telhado e começava o voo. Como era gostoso
sentir a brisa fresca no rosto. Acho que o super homem nunca aproveitou o toque
suave da brisa em seu rosto, ele sempre voava rápido. Eu não, aproveitava bem a
visão que tinha observando bem os detalhes. O interessante é que não precisava
bater os braços como asas ou como se estivesse afundando num rio. Eu
simplesmente flutuava. Flutuei pela cidade toda observando e os telhados, os
quintais, as mangueiras e as jaqueiras. Era engraçado, apesar de ser de dia eu
não encontrava pessoas nas ruas, acho que nesse momento todos paravam e entravam
em casa, talvez tinha algo mais forte que o obrigavam a isso. Eu queria que as
pessoas vissem. Eu queria que percebessem que eu estava flutuando para depois
contar vantagem que eu era o único que voava naquela cidade. Poderia ter outros
em outros lugares, mas ali era apenas eu. É uma pena, que não tive testemunha e
que não pude provar para ninguém as minhas aventuras voadoras. O tempo passou,
cresci e fui perdendo a capacidade de voar. Hoje minhas madrugadas são
preenchidas por pesadelos.
11.6.15
6.5.15
Dúvidas
Tento compreender,
tento....
mas não compreendo.
tento....
mas o limite tem asas e foge
tento...
e não compreendo
não entendo como pode acabar os sonhos
tento...
tento entender
compreender
satisfazer
não consigo em er
e nem em ar
atenuar
matar
amar.
tento....
mas não compreendo.
tento....
mas o limite tem asas e foge
tento...
e não compreendo
não entendo como pode acabar os sonhos
tento...
tento entender
compreender
satisfazer
não consigo em er
e nem em ar
atenuar
matar
amar.
20.3.15
Dia da Felicidade
A Felicidade está...
Está no coração de cada
ser humano que...
Vive,
sonha,
luta,
vence.
A Verdadeira
Felicidade está...
Está na alma de cada
pessoa que
vive e deixa viver,
luta para que
outros vivam,
vence os obstáculos das
diferenças sociais,
sonha com um mundo
harmonioso.
A Felicidade está...
Está na consciência de
cada indivíduo que
faz o bem sem olhar a
quem,
não mede
esforços quando
o objetivo é fazer o
próximo feliz.
A verdadeira felicidade está...
Está
na realização do maior de nossos sonhos,
que
é fazer feliz o maior número de pessoas possível.
“A
Verdadeira Felicidade está em ajudar ao próximo.”
Valter Figueira
Do livro "Poesias" Ed. Borck 2013.
17.3.15
Por que as pessoas necessitam da dor dos noticiários?
Por Nara Rúbia Ribeiro
Liguei a TV. Algo de medonho havia ocorrido. Dados
alarmantes, números bizarros e depoimentos diversos davam notícia de que o
futuro havia chegado de mãos dadas com o fim. Tudo pareceu-me desolado. A
economia desconsolada, o Judiciário vendido, a democracia vilipendiada. E
mortes e insegurança e indignação e desespero… Deus! Quem foi que violentou a
alma do mundo para que tudo sangrasse assim, com tanta força?
Mas eu tive a ousadia de desligar a TV. Eu tive a audácia
de não ler jornais. Eu tive o despreparo de andar pela rua e de observar
pessoas, coisas e tentar enxergar abstratos.
Uma mãe segurava a mão do filho pequenino e dizia:
– Não, Artur. Depois do “3” não vem já o “5”. Vem o “4”.
Uma senhora sorriu, escorada no umbral da entrada de uma
casa, ao perceber a confusão numérica da criança. E prosseguiu observando mãe e
filho a sumirem de vista, enquanto acariciava um gato vira-latas que parecia
também observar a cena.
Havia flores nos canteiros das casas e crianças
uniformizadas, ainda sonolentas, seguiam para a escola. Passarinhos povoavam os
fios de alta tensão como se a delicadeza desafiasse a força, como se as penas
blindassem as suas almas da violência do mundo. Em meio ao barulho dos
automóveis, quem tivesse o ouvido inclinado à beleza poderia ouvir o canto
indecifrável desses pássaros.
Um jovem me viu parada a observar essas coisas e
perguntou-me: – Você está bem? A custo compreendi a pergunta, e respondi:
– É um bom dia, não é? Ele acenou com a cabeça positivamente, e seguiu caminho.
E vi muitas pessoas sorrindo e contando anedotas. Vi um
beija-flor meio perdido entre flores de vida e rosas de plástico, mas ele
sobreviveu. Vi pedrinhas coloridas numa calçada. Ouvi o porteiro do prédio a
relatar, a um amigo, o desfecho triunfal de sua noite de amor.
E percebi que a ausência da vida é resultante do
distanciamento da sua essência. Percebi que as verdades poéticas e cotidianas
não são notícia. Quem quer saber de beija-flores confusos ou de pequenos
aprendizes matemáticos? Quem quer noticiar a glória de pássaros que desafiam a
insensibilidade das almas? Quem quer saber de tudo isso se nem sabe que isso
existe?
As pessoas necessitam da dor dos noticiários. Necessitam
de ver o sangue, a violência, a podridão do mundo porque querem urgente e
desesperadamente compreender o que lhes dói. Elas precisam saber o que fez do
seu peito um oco, um vazio, um vão imensurável e doído. Elas precisam saber da
origem do nada que as incomoda, o nascedouro do apego ao concreto, a gênese de
sua indiferença, a origem do medo generalizado que arrebata o sentido. E é isso
que o noticiário vende!
Estou farta de ver holofotes plenos à mediocridade dos
homens. É preciso entender que o Homem é maior do que é. É preciso compreender
e amar a beleza que germina em todas as coisas e antever a árvore
frondosa e a doçura do fruto. É preciso valorar as pequenas delicadezas, as
imperceptíveis gentilezas. É preciso ver a beleza que existe, talvez ainda
embrionária, em cada um. É preciso que a alma não se renda à morte vendida nos
noticiários, e ainda se mostre rendilhada e rebordada na afeição de pequenos e
reiterados gestos.
Por isso eu o convido, hoje, a ter a ousadia de desligar
a TV, de desconectar-se das redes sociais que tantas vezes destilam ódio, de
não ler jornais. Convido a fazer uso do seu wi-fi interior. Da sua antena superior. E
conectar-se às belezas que o circundam. Sintonizar-se com o encantamento que
paira sobre o inusitado das existências anônimas, das pessoas anônimas, dos
objetos e seres desimportantes. Afinal, se essa beleza nos preenche, porque
haveríamos de justificar os vazios?
Goiânia, 13 de março de 2015
Nara
Rúbia Ribeiro
Escritora, advogada e
professora universitária.
Administradora da página oficial do escritor moçambicano Mia Couto.
No Facebook: Escritos de Nara Rúbia Ribeiro
Mia Couto oficial
Administradora da página oficial do escritor moçambicano Mia Couto.
No Facebook: Escritos de Nara Rúbia Ribeiro
Mia Couto oficial
1.8.14
POESIA
Ao poeta Gideon
Antunes
A poesia do pantaneiro
rasteja na lama
se molha nas águas do
pantanal e se seca
ao sol e na poeira das
estradas
sem pavimento.
A poesia do pampeiro
corre a galope
na garupa de um cavalo,
canta ao som
de um acordeão, perde-se
nas invernadas
atrás dos xucros e
descansa numa roda
de chimarrão.
A minha poesia não se
enquadra em
nenhum modo, porque é
diversa, sem
estilo, é o resultado
de um sonho,
de um pesadelo e de uma
solidão.
Do livro "Poesias" 2ª Ed. Borck, 2014
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