21.9.09

Felicidade eterna?


A felicidade é algo muito subjetivo. Todos a buscam, mas poucos a encontram. Como se define a felicidade? Como podemos saber que estamos nos sentindo felizes?
Algumas pessoas precisam de um aperto de mão amigo, de uma palavra de consolo. Com isso, estão felizes.
Outras, contudo, para estar felizes são mais exigentes. Querem luxo, saldo bancário com muitos zeros. Quando conseguem, querem mais. Usam como argumento, uma frase muito interessante e lógica: O dinheiro não traz a felicidade...manda buscar. O que nem sempre é verdade, porque nem sempre o dinheiro consegue trazer o bem estar interior, condição sine qua non para ser-se feliz.
Já teve alguém que me disse que para ser feliz, só queria ter saúde... e que seu dinheiro todo não conseguiu trazê-la.
Li um pensamento muito interessante, cujo autor desconheço (é tão inteligente, que poderia ser meu...). Vejam: Felicidade plena não existe... a vida é feita de uma sucessão de momentos felizes... e infelizes também.
Realmente, nunca podemos nos considerar totalmente felizes. Sempre existe uma "peninha" para atrapalhar. Aliás, é nisso que está o gosto pela vida. Sempre temos que lutar por algum objetivo que, uma vez alcançado, serve de trampolim para outro.
O perigo está em julgar que "chegamos lá". Pronto. Objetivo alcançado. Agora é só procurar um "barranco e morrer encostado".
Aí é que a "ruminante fêmea dirige-se à região pantanosa". A pessoa sem objetivos, entra em depressão, e começa a julgar-se um inútil. Paradoxal, não? Consegue realizar tudo o que sonhou, e entra em depressão por causa disso. Enfim... coisas da natureza humana...
O que devemos fazer é aproveitar tudo o que de bom a vida nos oferece, enquanto podemos aproveitar. Paralelamente, temos que saber aceitar os revezes que nos cruzam o caminho, sem mágoas ou revolta. Não esquecendo que SÓ felicidade atrapalha, pois nos tira a vontade de lutar, além de nos dar a falsa impressão de que TUDO podemos.
Sempre temos que ter algum objetivo na vida. É nessa vontade lutar, de viver, que existe a verdadeira felicidade. É nessa capacidade de aceitar tudo o que de bom e de ruim a vida nos oferece, que se pode dizer: SOU FELIZ. E, principalmente, é adquirindo-se a certeza de que as coisas que nos acontecem obedecem a diretrizes de Alguém, é que se consegue realmente enxergar a FELICIDADE.
Como superar os momentos infelizes? Tendo no seu interior a certeza de que esses azares são simplesmente uma questão temporal, algo que surgiu somente para testar sua força de vontade, sua capacidade em superar adversidades. Aí sim, você poderá saber se merece ou não ter mais momentos felizes do que infelizes, porque estes também são inevitáveis. Já dizia um velho provérbio: não há bem que sempre dure, e nem mal que nunca se acabe. Parece uma bobaginha, mas não é. Temos que estar sempre preparados para tudo, e não só para os bons momentos.
E o ponto principal... o requisito básico para que se alcance, se não a felicidade, pelo menos o bem estar interior, que é o primeiro passo para ser-se feliz, é preciso gostar-se.
Sem esse pequeno detalhe, nada feito.
Se você não conseguir gostar de si próprio, não poderá gostar do mundo.
Não gostando do mundo, não poderá estar bem nele.
Assim sendo... sinto muito, mas o que você está fazendo aqui?
Só atrapalhando quem quer viver...


Marcial Salaverry

10.7.09

TRISTÃO E IZOLDA


Sou o Tristão,
e espero na praia umbria,
seu sorriso de acalento,
seu olhar de penumbra
a chamar de meu amor.

Ainda espero que esqueça,
os desejos da carne,
e ouça o gemido de
meu mortal coração
que sangra mortalmente,
ferido por seu olhar de desprezo.

Ainda hei de gritar ao mundo:
És minha Izolda reencontrada
que perdeu-se num engano,
nas arestas da vida,
nas vertentes do destino,
na aba de um pseudoamor!

Ainda ouvirei o grito de muitos:
És o Tristão, que ama e idolatra
a solitária Izolda que o despreza
e maltrata.
Ainda espero na praia solitária
sua bandeira branca.

28.6.09

PARECE QUE FOI ONTEM

Fui pai de nada, esposo da brisa e amante
desolado de causas insolúveis.

Depois de cada cidade que percorri
vendendo saudades imperfeitas,
vendendo melodias nuas,
entre lábios que partem
sobre o gesto vacilante da brisa,
Sucumbi de amor e entreguei-me
ao delírio.


Nas tardes infantis aparecem
perfeitas recordações lacrimosas,
dos jogos que não joguei
nos espaços de sólidas madeiras
entre beijos contínuos,
como um rio em flor.
Na pureza das palavras e
na loucura do silêncio.

Desejo fluir no azul da ausência
numa combinação de rubis e esmeraldas.
Na liberdade do vento.
Como se fosse ontem.

13.6.09

Poemas em Homenagem a Carlinda-MT

Hino a Carlinda

Nas margens do Rio Telles Pires
Nasce o sonho de um povo que bendiz,
E da luta árdua, franca e gloriosa,
Surgiu Carlinda pequena, bela e feliz.

Sua história é de luta, força e paz
Seu solo fértil o progresso produz
Belezas e riquezas que retomam
O caminho e ao futuro nos conduz.

O riacho que lhe emprestou o nome
Traz o símbolo de vida, esperança e fervor,
É mulher, mãe gentil e a seus filhos
Dedica sempre: carinho e amor.

Algo de novo no norte desponta
O comentário de um dito colosso
Que procuram e todos apontam
Como grande orgulho de mato grosso

É Carlinda, que harmoniosamente cresce
É Carlinda, hospitaleira mãe gentil
É uma estrela que brilha forte
No céu do Brasil.


Valter Figueira


Carlinda

As vagas borboletas de mil cores
Avisa o capitão e ao seu intento
Da lida escolhida entre os amores
A Carlinda amada de seu aposento.

O rio que calmo lhe diria
Da amada cordial a relembrar
De seu olhar, do amor de seu dia
Do nascimento um rio a festejar

Foi assim: por amor e carinho
Que nasceu em meio a mata afã
A vergar o progresso no caminho
Da natureza inda mais louçã.

De povoado a cidade hospitaleira
Dos filhos que adotam no coração
E as benesses que te deu a natureza
Fazem-se orgulhosos deste torrão.

As navegar pelo rio São Manoel
Na calmaria ladeado de verdores
Surge sorridente ao arrebol: Carlinda
A princesa, recanto dos pássaros tenores

Telles Pires, capitão sonhador meticuloso
Ao percorrer caminhos verdejantes
Encontrou a encantada paz desejada
No Rio Piratininga de antes.

Carlinda de sonhos e desejos
Progressistas de seus habitantes
Hoje festeja com seus filhos
Os frutos de sua terra tão pujante.

Valter Figueira

7.6.09

O Jogo - do livro A Morte do Xerife




Fazia quinze minutos que o jogo começou e os ânimos já tinham ultrapassados os limites normais. A raiva e o ódio invadia a cabeça pequena e cheia de leis do pequeno doutor. Tinha acabado de cursar a faculdade, cinco anos de sofrimento. Agora se sentia imune e um insulto como aquele merecia uma resposta à altura. O lance, conhecido como carrinho, o derrubou acabando por perder a bola. Não é nada. É um jogo entre amigos. Mas não sabe porque, uma grande sede de vingança soou alto em seu subconsciente, não reagiria, não poderia. Haverá outra oportunidade e então...
A alegria foi total, quando numa jogada quase impossível, marcou o gol. Todos o cumprimentaram. Sente uma ponta de felicidade. Finalmente sente-se útil naquele lugar em que até agora era um mero visitante, apesar de ser seu berço natal.
No intervalo a confraternização era geral, animados todos já afirmavam ter ganho o jogo. Assim sorridentes partiram para o segundo tempo. A idéia de vingança quase tinha se apagado de sua memória, quando num lance topa novamente com o sujeito e este avançava. Era o último homem, se não segurasse ele ficaria cara a cara com o goleiro e certamente marcaria o gol. O único jeito era derrubar, cometer uma falta. Alguém no banco de reserva que estava atento a jogada gritou: "Mata a jogada", pensou e decidiu fazer isso mesmo. Além de não permitir que o outro marcasse o gol, poderia vingar-se. Então num lance bruto foi com os dois pés na perna do atacante que saiu esbravejando dizendo que era um bruto e não sabia jogar. Foram aquelas palavras que soaram como um grave insulto a sua índole de advogado recém formado. Irado foi até o outro que continuava sentado no gramado se preparando para levantar, sem dizer nada, desferiu um forte chute na região da mandíbula próxima ao pescoço, que o indivíduo não agüentou e caiu inerte.
Advogado recém formado, imune como se dizia, não poderia deixar que alguém o insultasse. Virou-se e foi embora gritando que não jogaria mais. Ninguém prestou atenção no que ele dizia. E também ninguém ia continuar jogando pois o rapaz acabava de falecer. Talvez não tenha aprendido na faculdade que só pelo fato de ser advogado não era imune, ou talvez não tenha entendido direito quando lhe disseram para matar a jogada e não o jogador.

Texto retirado do Blog: Lingua de Mariposa

O ESFANDRO E A BORBOLETA

Quando ganhei esse livro, em 2001, vivia no Brasil, estava me recuperando de uma depressão e minha mãe estava desaparecida em si mesma, numa enfermidade carnívora. Uma doença que vai tirando da pessoa tudo que é dela, até suas lembranças mais viscerais. Depois ela transforma a pessoa em uma casca vazia, só mata depois que destroi tudo.Quando soube que o livro contava a história de um jornalista francês que havia sofrido um acidente cerebral e que havia escrito o relato piscando um olho para as letras do alfabeto que uma enfermeira lhe mostrava, não tive coragem nem de abri-lo.Guardei o presente para ler em outra época. Eu estava tão fragmentada ainda. Tinha um medo horrível de entrar no túnel escuro da tristeza sem nome... precisava cuidar mais das minhas emoções e tinha consciência da fragilidade da minha saúde afetiva.Aliás, essa foi uma aprendizagem da época. Aprendi a cuidar mais de mim. Aprendi a perceber quando estou mais sensível, mais vulnerável... e evitar expor-me a sensações muito fortes.Mas... um dia desses, arrumando as novas estantes da casa, encontrei o livro. Li a dedicatória carinhosa da amiga brasileira e criei coragem, abri a primeira página e comecei a ler. E não parei mais até que o terminei. Li de um só fôlego.Foi fantástico ver o mundo através de sua experiência. Uma hora com humor, outra emudecida pela impotência, outra ainda entre lágrimas de saudades das coisas mais simples, como estender a mão e fazer uma carícia...
Vou contar um pouco a história.
Jean Dominique Bauby, um jornalista francês, bem sucedido, jovem pai de dois filhos e cheio de energia, sofreu um acidente vascular cerebral com pouco mais de quarenta anos, entrou em coma e quando saiu deste estado percebeu que sua mente estava quase intacta... mas o único que havia perdido era a conexão com seu próprio corpo. Estava completamente paralisado, numa síndrome chamada "locked-in", que significa "trancado em si mesmo". Não podia mexer-se, comer, falar, nem sequer respirar sem ajuda de uma máquina. Apenas um olho se mexia. Ele piscava. Uma vez para dizer sim e duas para dizer não.

Com esse único movimento físico ele decidiu se comunicar com o mundo, seus filhos e seus amigos e contar que estava vivo, que pensava sair daquela prisão e queria que soubessem o que ele sentia lá dentro de sua cabeça e de seu coração. Para isso ia piscando e indicando as letras que iriam formar as palavras e frases de um livro espetacular de 140 páginas.Emocionada, fiquei me lembrando dos monólogos que tive com a Princesa, durante seu último ano de vida, desejando que dentro dela estivesse escondida a mulher que ela era. Recordei as histórias que eu lhe contava, as músicas que cantava, as sinfonias e concertos que fazia tocar no som de seu quarto, baixinho, para que pudesse escutá-las mais uma vez. Às vezes eu tinha a impressão que algo em sua expressão mudava... Era só uma impressão?Talvez.
Aprendi muito sobre a vida com a morte da minha mãe. Eu já disse muitas vezes e vou repetir, minha mãe me pariu outra vez quando morreu.Não quero que isso seja visto apenas como um drama particular, embora sua morte tenha sido dramática para mim. Estou falando de como reaprendi a viver. Estou falando de aprender a dar o valor real à vida e tomar consciência de sua fugacidade. Aprender a valorizar a memória, a imaginação, a capacidade para mover-se, ler um livro, escutar uma música, abraçar um filho, um amigo. Aprender a valorar mais as relações e menos as coisas. Agora. Enquanto é possível.
Estou falando em ter consciência disso on line, durante a ação. Saber que este é um privilégio que algumas pessoas perderam num segundo... e que a gente não tem sequer a noção do que significa essa perda.
Bauby também ensina os verdadeiros valores da vida desde sua prisão - seu corpo - um escafandro, como ele o chama... e de sua alma, a borboleta com a qual ele voa, visita seus filhos, viaja pela Paris que adora, toca e beija seus queridos...
É impossível ser o mesmo depois de ler seu livro. Não é ficção, é real. Aconteceu de verdade... Só não reflete e aprende quem for impermeável.Descobri, cafufando a Internet, que rodaram um filme em 2007 que foi indicado a 4 Oscars. Como assim? E eu não vi!Pois sim. Em 2007 eu estava vivendo lá no meu monte, longe de... quase tudo. Aposto que ele não passou no pequeno cinema da praça de Los Santos Niños, em Alcalá de Henares.
Li algumas críticas excelentes. Vou tentar encontrá-lo em uma locadora por aqui por perto. O diretor é o mesmo de Antes do Anoitecer, um de meus filmes queridos, e trata o tema com delicadeza, fugindo do dramalhão piegas hollywoodiano em que se transformam excelentes livros.
E sou fã do cinema francês.
Mas um para minha extensa lista de perdidos...
(Le Escaphandre et le Papillon - França / EUA, 2007 / Brasil 2008 - 112 min)
Direção: Julian Schnabel.
Roteiro: Ronald Harwood adaptando livro de Jean-Dominique Bauby.
Elenco: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze, Anne Consigny, Max von Sydow, Marina Hands, Isaach De Bankolé.
Gênero: Drama, Biografia.

Texto Escrito por: Nora Borges www.verbeat.org/blogs/linguademariposa/