5.2.18

PROSA & POESIA


Mais um poeta haicaísta que muito contribui e contribui para o nosso saber literário:
Guilherme de Almeida (Guilherme de Andrade de Almeida), advogado, jornalista, poeta, ensaísta e tradutor, nasceu em Campinas, SP, em 24 de julho de 1890, e faleceu em São Paulo, SP, em 11 de julho de 1969. Em 1932 participou da Revolução Constitucionalista de São Paulo. Em concurso organizado pelo Correio da Manhã foi eleito, em 16 de setembro de 1959, “Príncipe dos Poetas Brasileiros”. Um dos promotores da Semana de Arte Moderna, em 1922, foi fundador da Klaxon, a principal revista dos modernistas. Principais obras: Nós, poesia (1917); A dança das horas, poesia (1919); Messidor, poesia (1919); Livro de horas de Soror Dolorosa, poesia (1920); Era uma vez..., poesia (1922); A flauta que eu perdi, poesia (1924); Meu, poesia (1925); Raça, poesia (1925); Encantamento, poesia (1925); Do sentimento nacionalista na poesia brasileira, ensaio (1926); Ritmo, elemento de expressão, ensaio (1926); Simplicidade, poesia (1929); Você, poesia (1931); Poemas escolhidos (1931); Acaso, poesia (1938); Poesia vária (1947); Toda a poesia (1953).


Consolo
A noite chorou
a bolha em que, sobre a folha,
o sol despertou.

Os andaimes

Na gaiola cheia
(pedreiros e carpinteiros)
o dia gorjeia.

Pescaria

Cochilo. Na linha
eu ponho a isca de um sonho.
Pesco uma estrelinha.

Romance

E cruzam-se as linhas
no fino tear do destino.
Tuas mãos nas minhas.

O haicai

Lava, escorre, agita
a areia. E enfim, na bateia,
fica uma pepita.

O pensamento

O ar. A folha. A fuga.
No lago, um círculo vago.
No rosto, uma ruga.

Hora de ter saudade

Houve aquele tempo...
(E agora, que a chuva chora,
ouve aquele tempo!)

Infância

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".

Cigarra

Diamante. Vidraça.
Arisca, áspera asa risca
o ar. E brilha. E passa.

Consolo

A noite chorou
a bolha em que, sobre a folha,
o sol despertou.

Chuva de primavera

Vê como se atraem
nos fios os pingos frios!
E juntam-se. E caem.

Noturno

Na cidade, a lua:
a joia branca que boia
na lama da rua.

Os andaimes

Na gaiola cheia
(pedreiros e carpinteiros)
o dia gorjeia.
 


Tristeza

Por que estás assim,
violeta? Que borboleta
morreu no jardim?

Pescaria

Cochilo. Na linha
eu ponho a isca de um sonho.
Pesco uma estrelinha.

Janeiro

Jasmineiro em flor.
Ciranda o luar na varanda.
Cheiro de calor.

De noite

Uma árvore nua
aponta o céu. Numa ponta
brota um fruto. A lua?

Frio

Neblina? ou vidraça
que o quente alento da gente,
que olha a rua, embaça?

Festa móvel

Nós dois? - Não me lembro.
Quando era que a primavera
caía em setembro?

Romance

E cruzam-se as linhas
no fino tear do destino.
Tuas mãos nas minhas.







Novo livro


3.2.18

Infinito


Para onde vai o ar que respiro
quando bate o vento?
Essa brisa que me acompanha
e depois se perde no horizonte,
para onde vai?
Para onde vão as imagens
que são esquecidas no firmamento?
Para onde vãos os rostos de ontem,
rostos que mudam com o tempo?
Para onde vai essa luz e esta sombra
companheira de atalhos e abismos?
Quando formos já não teremos sombra
e as pegadas se apagam.
Para onde vão a tristezas e os sorrisos
as imagens e os horizontes?
E as flores das janelas, os aromas
de teu amor distante?
Para onde irão esses versos
perdidos de tantas perguntas?
Valter Figueira
Do livro "Anjo Rosa"

Eu preciso


Foi-se embora o tempo 
em que eu poderia dizer 
simplesmente eu quero e eu posso.
Hoje eu preciso
de um encanto
de um abraço
de um sorriso.
Não quero,
o querer tem a possibilidade do
não querer
Eu preciso
de um encanto
de um olhar apaixonado
de gestos que indique um desejo.
Não mais desejo
o desejar tem a
possibilidade do não
ou do saciar
eu preciso.
Preciso de um encanto
de um abraço
de um beijo.
Chegaste como uma brisa
e partiste como um vendaval,
no intervalo tudo foi tão suave
que nem percebi que estávamos
vivendo uma paixão tempestuosa.

A garota do poema

Foi apenas um olhar, você disse.
Não foi! Aquele olhar me devastou
o brilho cegou-me que tropecei e cai de amores.

Foi apenas um sorriso, você disse.
Não foi! Aquilo foi um turbilhão de encantos
que me apaixonei.
Foi apenas um beijo, você disse.
Não foi! Nossas faces se encontraram
numa explosão de sentimentos e desejos.
Foi apenas um poema, você disse.
Não foi! Aquilo era o fiel retrato
da minha paixão.
Foi apenas um adeus, você disse.
Não foi! Foi o estopim para o choro contido
poemas e canções perdidas pelo vento
das frias manhãs de junho.

4.10.17

Prosa e poesia

Seguindo nossa caminhada literária pelos poetas haicaístas, o espaço de hoje é dedicado a poetisa Helena Kolody, paranaense, professora, foi a primeira mulher brasileira a utilizar a estrutura haicai em suas poesias.
Helena Kolody (1912-2004) considerada uma das maiores representantes literárias do Estado do Paraná. Nasceu na cidade de Cruz Machado, no Paraná, no dia 12 de outubro de 1912. Com 12 anos escreveu seus primeiros versos. Em 1928, com 16 anos, tem seu poema “A Lágrima” pulicado na revista “Marinha”, de Paranaguá, a maior divulgadora de sua obra. Em 1941, Helena Kolody publicou seu primeiro livro “Paisagem Interior”. Em 1941, escreveu seus primeiros haicais, sendo criticada, por não ter rima, mas continuou publicando essa forma de poesia. Grande parte de sua vida foi dedicada à poesia. Faleceu em Curitiba, Paraná, no dia 15 de fevereiro de 2004.
Alguns haicais de Helena Kolody:



A flecha de sol
pinta estrelas na vidraça.
Despede-se o dia.

Bate breve o gongo.
Na amplidão do templo ecoa
o som lento e longo.

Corrida no parque.
O menino inválido
aplaude os atletas.

Da estátua de areia
nada restará
depois da maré cheia

Depois será sempre agora
viajarei pelas galáxias
universo afora

Dormem as papoulas
a lua sonha no céu
vigiam os grilos

Em líquidos caules,
irisadas flores d'água
cintilam ao sol.

Festa das Lanternas!
Os ipês estão luzindo
De globos cor-de-ouro.

Luar nos cabelos.
Constelações na memória.
Orvalho no olhar.

Manhã nas flores do cardo
leve poeira de orvalho
manhã no deserto

Nas flores do cardo,
leve poeira de orvalho.
Manhã no deserto.


Nas mãos inspiradas
nascem antigas palavras
com novo matiz.

O brilho da lâmpada,
no interior da morada,
empalidece as estrelas.

Os olhos do amado
esqueceram-se nos teus.
Perdidos em sonho

Para quem viaja
ao encontro do sol
é sempre madrugada.

Puseste a gaiola
suspensa dum ramo em flor
num dia de sol

Pintou estrelas no muro
e teve o céu
ao alcance das mãos.

Será sempre agora.
Viajarei pelas galáxias
universo afora.

Tão longa a jornada!
E a gente cai, de repente,
No abismo do nada.

Trêmula gota de orvalho
Presa na teia de aranha,
rebrilhando como estrela.

Um sabiá cantou.
Longe, dançou o arvoredo.
Choveram saudades.

Voo solitário
na fímbria da noite
em busca do pouso distante