21.4.16

Papo de Boteco



Numa quarta-feira quente, depois do expediente, passei no bar da esquina para tomar uma água tônica com gelo. Estava pensando em como resolver os percalços da vida e observando os diversos tipos físicos que frequentam o ambiente, de repente um vereador. Isso mesmo um vereador deu um toque em meu ombro e sentou na cadeira que estava vazia. Pensei porque fui deixar uma cadeira vazia ali do meu lado. Cumprimentou eu em particular e os demais por atacado. Pediu uma pinga. Uma pinga? Eu que até então acreditava que ele era evangélico. Mas tudo bem. E começou o papo.
“Professor fiquei sabendo que o senhor está organizando esse negócio de Plano Municipal de Educação, não é mesmo? Então é que tem uma coisa lá que quero discutir, esse negócio de gênero, sabe como é né? O pastor da minha igreja, um homem estudado que explica para a gente direitinho a bíblia. Então... ele disse que esse negócio de gênero é do capeta, que vai acabar com a família. Então professor como tá esse negócio”
Fiquei quieto observando o dito autoridade expor seus argumentos e toda a sua sabedoria. Em alguns momentos parece que ia babar e jogar para fora toda pinga que tomou. Mas não. Ainda no meio da conversa pediu mais uma dose e tentou explicar.
“Sabe! O pastor não sabe que eu tomo umas pingas. Mas sabe como é né? A gente precisa de uma igreja e nessa o pastor me ajuda a convencer os eleitores. E depois só tem eu de vereador lá. Sabe como é? O vereador tem que estar onde o povo está. Principalmente em velório, lá o povo vê a gente como humano e até dá para ganhar alguns votos. Então professor? Esse negócio de gênero como é que é?”  
Fiquei imaginando uma maneira de explicar a essa digníssima autoridade para que ele entenda. Foi então que saiu.
“Bem vereador, não se preocupe, pois contratamos um filólogo para analisar o texto do plano e ele trocou todas as palavras gêneros por sinônimos. E mais ainda ele trocou também as palavras generoso, general, generalidade e mais algumas para não provocar confusão”
“Nossa professor, o senhor é inteligente mesmo. Sinônimo o pastor não falou nada não. Acho que sinônimo tá bom né? Se fosse coisa ruim o pastor tinha falado. E esse cara que você disse que contratou é de Deus?”
“É de Deus sim vereador, ele é daquela igreja ali da outra esquina. Primo do pastor. Ele estava agora pouco aqui. Tomou uma cerveja e foi embora. É fácil encontrar ele, sempre está com um livro de filologia na mão. É para usar o português corretamente.”
“Que bom professor. Eu estava preocupado. Já pensou se a gente aprova esse plano e depois esse gênero destrói a família de nossa cidade. O pastor não gosta mas eu tenho duas famílias. Ainda bem que nem todos os eleitores sabem disso. Mas sabe como é né? A gente vai futricando aqui e ali e as coisas acontecem.”
Que hipocrisia. Que ignorância. Que analfabetismo. Mas a vida é assim, temos os legisladores que elegemos.
“Que bom não é professor. Conversando a gente entende. Que bom que o senhor explicou tudo. Mas professor estou indo porque ainda tenho um velório para ir. Você sabe né? Se vereador não vai a velório pega mal.”
Ele se despediu e foi. Ainda bem. Espero que a história do filólogo o tenha convencido. Ou ele por não saber o que é um filólogo, ficou com vergonha de dizer e aceitou sem questionar. Fiquei indignado e imaginando que pessoas votam num analfabeto para ser legislador. Para aliviar a indignação e raiva, tomei uma cerveja e fui embora.
Valter Figueira

Professor, poeta e prosador. Reside em Carlinda-MT.

22.1.16

dor


Dor

Queria ser poeta
para fingir que não é dor
a dor que sinto.
A dor da impotência
diante de um mundo que quer
respostas urgentes aos seus problemas,
A dor da perca da senilidade
diante tantas ocasiões de erros e acertos.
Vou fingir que não é dor
a dor que sinto
para que o caminhar seja menos penoso,
para que as lágrimas não caiam.
Vou fingir que não é dor a dor que sinto.

7.12.15

Vale a pena ler





George Steiner & Cecile Ladjali
Lisboa: Dom Quixote, 2005
Cécile Ladjali é uma escritora e professora ainda jovem, que tem leccionado francês em escolas suburbanas e multiétnicas da grande Paris, onde, em geral, ninguém deseja ser colocado; George Steiner é um crítico literário e filósofo, professor em universidades com prestígio – Oxford, Harvard, Cambridge. Ladjali, ao que parece, contacta entusiasmada com os seus inquietos alunos adolescentes, quase todos socialmente desfavorecidos; Steiner, define-se como um leitor solitário, não sendo difícil imaginá-lo, de lápis na mão, em diálogo com os clássicos, contactando esporadicamente com estudantes de elite e outros intelectuais de estatura internacional.
O que levou, então, estas duas pessoas que se movimentam em universos tão distintos, a publicar em conjunto, em meados de 2003, um livro subordinado ao título Éloge de la transmission: le maître et l’elève? A resposta é muito simples: ambos pensam que a missão fundamental de quem ensina é ajudar os alunos a pensarem por si próprios, sendo, para isso, necessário, entre outras coisas, que contactem com a literatura e se iniciem na criação literária.

Um incauto dirá que esta preocupação nada tem de extraordinário: não é aceitável como, até, louvável. Mas tem e não é uma eventualidade do presente. Para não recuarmos muito no tempo, situamos nas décadas de sessenta e setenta e seguintes a polémica que rodeia essa preocupação, a saber: devemos concentrar-nos no contexto vivencial dos alunos para delinearmos o curriculum, que deve estar de acordo com esse contexto, de modo que os alunos venham a integrar-se nele? Ou devemos partir do princípio que os alunos podem interessar-se por outros contextos além do seu, devendo o curriculum ser delineado em função daquilo que intrinsecamente possui um valor real para o desenvolvimento da humanidade e de cada pessoa?
Ao contrário da primeira, esta segunda alternativa assenta no pressuposto de que os conteúdos a ensinar não têm todos o mesmo valor: uns valem mais que outros. Nega, claro está, o relativismo cultural, tão acarinhado pelas correntes pós-modernas, relativismo que, na óptica de muitos, prevalece nos actuais sistemas educativos ocidentais com consequências devastadoras para as novas gerações, sobretudo para os sujeitos mais desfavorecidos sob o ponto de vista social, porquanto ficam praticamente impossibilitados de contactar com o que se entende não ser “da sua cultura” e, em consequência, num plano agravado de desigualdade de oportunidades, no que concerne tanto ao seu percurso escolar, como aos seus percursos pessoal e profissional.
Arriscando-se a serem considerados elitistas (pois quando se trata de populações das periferias e - muito importante - pobres, é comum evocar-se, como salienta Fernando Savater, o “respeito pelas origens”, só sendo lícito ensinar no estreito quadro dessas origens), Steiner e Ladjali afirmam claramente a sua posição: conviver desde cedo com Flaubert, Bruno, Goethe, Proust ou Wilde proporciona a alegria de aprender e de criar. E é essencialmente deste assunto que falam no presente livro que as Publicações Dom Quixote, em boa hora, decidiu publicar entre nós, em 2005.
Passemos, então, à apresentação: esta é uma obra de reduzidas dimensões (tem pouco mais de cem páginas), mas, não obstante, expõe e discute profundamente, numa escrita apelativa que prima pela clareza, ideias e práticas educativas, numa conjugação pouco comum. Após um prefácio, em forma de diário, redigido por Ladjali, o livro completa-se com diálogos, ou entrevistas, entre os autores, ocorridas no programa de rádio France Culture. São sete esses diálogos: Elogio da dificuldade, Criar na escola, Gramática, O professor, Os mestres, Os clássicos e Na turma.
Logo nas primeiras páginas, somos informados que a professora Ladjali, além de proporcionar leituras que os seus alunos do secundário provavelmente nunca fariam se não andassem na escola – eis uma mais valia da escola –, levou muitos deles (não todos) a escrever sonetos e uma peça de teatro. Os trabalhos, que as figuras ilustram, foram dignamente apresentados ao público: os sonetos em forma de livro, Murmures, com um prefácio de Steiner; a peça, Tohu-Bohu, encenada e representada.
Ficamos também a saber que todo este trabalho foi realizado num clima de grande exigência e esforço, de muitos ensaios e correcções, de grande investimento e alguns desapontamentos, de optimismo doseado com algum cepticismo, mas também de muitos livros distribuídos e alguns perdidos. Este é o risco que se corre quando se fazem, indiscriminadamente, empréstimos de livros, mas é nele que assenta a primeira abordagem metodológica de Ladjali: advogando a imprescindibilidade de "ler muito para escrever", para “entrar no jogo da escrita”, enche malas de livros que leva para as aulas, de modo que os alunos façam escolhas de acordo com as suas capacidades e interesses. Não pode dizer-se, portanto, que estejamos perante uma abordagem pedagógica impositiva, igualitária, cega em relação aos destinatários; pelo contrário, parte deles, centra-se neles, mas com o fito de os conduzir a um outro estádio de desenvolvimento, de lhes proporcionar outros horizontes. A professora, recusa, portanto, o destino ditado pela condição social, ao mesmo tempo que afirma a sua crença numa escola libertadora; ao defender que “os alunos merecem tudo menos a indiferença”, assume uma postura revolucionária, que muitos confundirão com conservadorismo.
Voltando a atenção para Steiner. Ainda que o leitor não encontre neste livro ideias novas, retomará aquelas que, de uma forma brilhante, o autor já expôs em vários dos seus livros e que proporciona uma reflexão sobre práticas pedagógicas. Numa altura em que tanto se elogia essa reflexão, da qual não raras vezes redunda o vazio, a abordagem deste filósofo, ao facultar referenciais de análise, imprime-lhe sentido e consistência. E isto acontece mesmo quando se trata dos dilemas essenciais com os quais os educadores mais atreitos a pensar nos seus desígnios da sua profissão se confrontam: pode a sua acção contrariar a barbárie, o declínio e morte da civilização, o vazio gnoseológico e axiológico ou, tragicamente, isso estará fora do seu alcance, como a história já pareceu provar por diversas vezes?
Quando o livro veio a lume, críticos de várias nacionalidades, nomeadamente, franceses, espanhóis e portugueses, sublinharam que ele consubstanciava um rebelo contra a pedagogia e os seus mentores, inimigos da memorização, da repetição e, em última instância, da “esperança” que Steiner advoga ser pertença de todo o aluno. Subjacente a estas intervenções encontra-se a ideia, lamentavelmente ainda muito corrente, que a pedagogia desvaloriza o saber, sobretudo o saber clássico, erudito, universal, com base na justificação de que a sua transmissão constitui um mecanismo de reprodução social. Trata-se de um equívoco que vale a pena esclarecer: a pedagogia, como ciência, não pode deixar de valorizar o saber e, portanto, uma das grandes preocupações de quem nela labora é, ou deve ser, a sua transmissão.
Em suma, trata-se de um livro admirável, que dá conta duma experiência educativa concreta, pensamos que pouco comum, e que, por isso mesmo, mereceria um estudo pormenorizado, desafio que a ilustre Sorbonne declinou, alegando que “não se preocupava com a pedagogia”. Eis uma atitude que, por amor aos clássicos, mais cedo ou mais tarde, a universidade terá de rever.
Helena Damião

24.8.15

Por que os políticos fazem plástica antes da eleição

                                Avaliar membros de sua espécie é uma tarefa importante para os mamíferos sociais, e eles a executam com eficiência. Acreditando nessa habilidade, o Homo sapiens organizou as democracias baseadas no voto universal. Mas existe um problema. Nosso cérebro e o cérebro dos macacos, que deram origem à espécie humana, foram selecionados durante milhões de anos para avaliar membros de nossa espécie com os quais interagíamos diretamente - indivíduos de nossos bandos ou tribos, cujo comportamento observávamos todos os dias e com quem nos comunicávamos constantemente. É dessa maneira que os machos e as fêmeas dominantes são escolhidos e os paramentos sexuais determinados. Selecionar um líder entre candidatos com os quais nunca interagimos é uma novidade para o cérebro humano, e não é tarefa que ele, mesmo educado, faça com facilidade. Se puder escolher, nosso cérebro prefere utilizar poucas informações obtidas em interações diretas. É por isso que os políticos andam pelas ruas cumprimentando o maior número possível de eleitores. Quando forçado a decidir com base em informações indiretas, os mecanismos utilizados pelo cérebro são primitivos e irracionais. A literatura científica está cheia de estudos que comprovam essa tese, mas um trabalho publicado recentemente demonstra quão primitivo é esse mecanismo.
                      Cientistas suíços selecionaram 57 pares de fotos de candidatos a eleições municipais francesas. Cada par continha uma foto do vencedor e uma do segundo colocado. Os pares foram mostrados para 684 adultos suíços que nunca haviam visto esses políticos. Sem informar quem eram as pessoas e nem mesmo que elas haviam sido candidatas a cargos políticos, os cientistas pediram que os suíços escolhessem o membro do par mais 'competente' e 'confiável'. Em 70% dos casos, o candidato avaliado como mais 'competente' havia sido o candidato eleito pelos franceses. Se adultos sem nenhuma informação além de uma foto fazem a mesma escolha que os eleitores, isso sugere que os mecanismos empregados para fazer a escolha são primitivos, talvez semelhantes aos utilizados pelas crianças. Para a confirmação dessa hipótese, os mesmos pares de fotos foram apresentados a 681 crianças com idade entre cinco e treze anos. As fotos foram mostradas no contexto de um jogo de computador, no qual as crianças deveriam escolher o melhor capitão para um barco que os guiaria em uma viagem perigosa. Os resultados com as crianças foram os mesmos que os obtidos com os adultos: elas escolheram o vencedor das eleições em 71 % dos casos. Isso sugere que os eleitores elegem seus líderes utilizando os mesmos mecanismos que o cérebro de uma criança usa para avaliar o rosto das pessoas.
                        Esse experimento é muito semelhante à maneira como os eleitores brasileiros são apresentados a candidatos ao Legislativo. Uma foto e uma frase. Mas o mais interessante é que esse experimento demonstra de forma científica um fato bastante conhecido dos políticos: a imagem da face, como ela aparece nas propagandas, é a principal fonte de informação utilizada por nosso cérebro quando ele é obrigado a fazer escolhas sem os dados da interação direta com o candidato. Não é de espantar que grande parte dos políticos se submeta a operações plásticas com o objetivo de se tornarem mais "competentes".
Este Texto faz parte do livro: “ A longa marcha dos Grilos Canibais”


 Fernando Reinach

21.7.15

Falta “Educação”



Começar um texto com o título acima tem o propósito de chamar a atenção do leitor para algo que vivenciamos e muitas vezes nos sentimos de mãos atadas para tentar resolver. Pedimos mais punições para as ações erradas, solicitamos diminuição da responsabilidade penal, mas esquecemos que punir é algo pós-ação. Deveríamos trabalhar mais para a prevenção. Prevenir crimes, infrações, acidentes e mortes depende principalmente da educação. 

Para exemplificar coletamos a explicação de Educação no Wikipédia “Educação engloba o processo de ensinar e aprender nos grupos constitutivos dessas, responsável pela sua manutenção e perpetuação a partir da transposição, às gerações que se seguem, dos modos culturais de ser, estar e agir necessários à convivência e ao ajustamento de um membro no seu grupo ou sociedade.” 

E essa educação, essa socialização e respeito as normas e regras da sociedade em que vive, depende principalmente do ensinamento de casa. Os exemplos, orientações e encaminhamentos dos progenitores são importantes para a constituição da base de uma sociedade. Viver em sociedade não é fácil, mas temos que aprender e principalmente respeitar regras e leis. Os crimes só acontecem porque alguém desrespeitou alguma lei, e isso é devido a falta de educação, a falta de respeito aos direitos do próximo. Porque apoderar-se daquilo que não me pertence? Por que destruir os bens públicos? Por que invadir propriedades alheias?

Se analisarmos bem encontraremos uma ponta de culpa na própria sociedade. O que vale hoje? O ter. Esquecemos de ensinar aos nossos descendentes a importância do ser. A importância do amor, do respeito. Nossa sociedade é consumista e capitalista ao extremo. Se não consumirmos, se não possuímos um capital estamos fadados a marginalização.

A resposta para muitas questões e problemas está na educação, não somente na educação formal, nas escolas, mas principalmente no conhecimento que a criança leva de casa para a escola. Afinal a escola não ensina a riscar paredes, destruir carteiras e nem a desrespeitar professores.

2.7.15

pressa

Tenho pressa.
caminho sonolento
mas tenho pressa.
O tempo passa devagar
mas tenho pressa.
Ando descalço e tenho pressa.
atraso as contas e tenho pressa
sou apressado
sou depressado.