19.2.12

Lei da palmada (mais uma lei?)

No final do ano passado foi aprovada pelos nossos legisladores nacionais a Lei da Palmada, mais uma lei punitiva para controlar os cidadãos nesse chamado “país democrático”. Sim é mais uma lei dentre outras que existem e não são cumpridas, principalmente por aqueles que deveriam, e por aqueles que fazem leis.
Não sou contra a Lei da Palmada: “PROJETO DE LEI Nº 2654 /2003 da Deputada Maria do Rosário, Dispõe sobre a alteração da Lei 8069, de 13/07/1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente, e da Lei 10406, de 10/01/2002, o Novo Código Civil, estabelecendo o direito da criança e do adolescente a não serem submetidos a qualquer forma de punição corporal, mediante a adoção de castigos moderados ou imoderados, sob a alegação de quaisquer propósitos, ainda que pedagógicos, e dá outras providências.” Mas como a própria lei diz que já está estabelecido no Estatuto da Criança do e Adolescente (ECA), então é só fazer cumprir.
Até parece que em nosso país se fazem leis para não serem cumpridas e depois fazem novas leis punitivas para aqueles que não cumprem. Não haveria necessidade de uma nova lei punitiva aos pais que agridem os filhos se eles cumprissem o que reza o ECA e que os pais aprendessem o que é certo e errado na educação dos filhos. Podemos afirmar então que o que está em falta é educação, fazer com que o cidadão seja honesto, ético e respeitar a vida.
Essa Lei é a prova do nível baixíssimo dos nossos "nobres" deputados. Proibir ou não as palmadas, é como discutir se proíbe ou não atirar com arma, ou qualquer outro meio violento. É mais uma lei punitiva e desnecessária. Antes disso é primordial discutir os motivos dessa atitude. Quais as principais dificuldades que os pais estão encontrando para educarem seus filhos. Prover as famílias de recursos psicológicos, pedagógicos e econômicos seria mais sensato e teria muito mais resultados positivos do que apenas punir.
Se analisarmos bem, a falta de condições dos pais em educar e participar mais do crescimento de seus filhos vem da falta de recursos econômicos. Os pais têm que trabalhar fora deixando de acompanhar da vida escolar e afetiva de seus filhos. Se recursos federais fossem direcionados para melhorar a educação e que fossem realmente aplicadas, melhoraria de forma significativa essa situação. Infelizmente há os desvios de verbas que se destinam a saúde e educação que são primordiais para a preparação do cidadão para viver em família e respeitar o outro.
Os deputados deveriam se preocupar em aprovar a lei que proíbe a corrupção, a fome, o desemprego, a falta de educação, uma lei que não permitisse que eles aumentassem os próprios salários, que eles tivessem que trabalhar, que proibisse a má gestão dos recursos originados de impostos, uma lei que proibisse crianças de rua e muitas outras.
Está mais do que provado que as leis punitivas, muitas vezes não elimina a possibilidade de acontecer novamente. A proteção às crianças e adolescentes se dará com projetos e ações preventivas. O que acontecerá com os pais punidos por praticarem tais atos? Nos casos mais graves serão presos. E cadeia não significa correção e aprendizado. Então o que fazer? Projetos e ações que trabalham com a família, que preparam os pais para não cometerem “erros” na educação e não precisar usar “corretivos”, que usem o diálogo e o bom senso para manter a harmonia na família.

Valter Figueira – Professor e escritor, reside em Carlinda –MT

7.2.12

Roteiro para ensinar a quem não quer

Ensinar a quem não quer é uma das missões impossíveis do professor. Porque o professor não pode aprender em vez do aluno. Porque o verbo aprender não suporta o imperativo. Porque aprender é um acto que pressupõe a vontade. Que fazer, então, num tempo em que muitos alunos parecem ter “perdido” a vontade de aprender? Enuncio, de seguida, um roteiro possível para acender a vontade, organizado segundo diversas variáveis, procurando sistematizar o que se "sabe" sobre a arte e a ciência da motivação e da implicação dos alunos nas tarefas escolares:

A. Currículo e programas
1. Ajustar o currículo aos contextos sociais e culturais locais
2. Relacionar os conteúdos com os contextos de vida dos alunos
3. Evidenciar a empregabilidade social e pessoal dos conhecimentos
4. Relevar a importância das aprendizagens emocionais, relacionais, cognitivas para a vida
5. Colocar o currículo e o programa ao serviço das aprendizagens dos alunos
6. Incorporar as inteligências múltiplas no desenvolvimento do currículo

B. Missão do professor
7. Criar oportunidades de aprendizagem para cada aluno
8. Recriar o currículo e o programa em função dos alunos
9. Descobrir os “detonadores” da motivação intrínseca de cada aluno
10. Usar o programa para que os alunos aprendam
11. Usar a avaliação para que os alunos aprendam mais
C. Agrupamento de alunos
12. Flexibilizar o agrupamento de alunos (grupos temporários de nível, grupos de interesse similares, grupos heterogéneos)

D. Gestão do tempo
13. Adequar o tempo às necessidades de cada aluno (no campo das aprendizagens, no campo da avaliação…)

E. Cumprimento de regras
14. Clarificar as regras básicas da convivência escolar
15. Implicar os alunos na construção dessas regras
16. Difundir massivamente essas regras para que sejam conhecidas e interiorizadas
17. Tornar claro que as acções dos alunos têm consequências e que ninguém é inimputável
18. Adoptar o princípio da tolerância zero em relação à violência
19. Construir, afirmar e valorizar a autoridade que preza o outro

F. Organização e gestão do espaço
20. Diversificar a disposição do espaço em função da actividade a desenvolver (mesas em filas, em U, em círculo, em pequenos grupos, face a face…)
21. Circular pelo espaço, gerir múltiplas interacções, observar o trabalho dos alunos em contexto de sala de aula (o professor como organizador de situações de aprendizagem)

G. Métodos e técnicas de ensino
22. Diversificar os métodos de ensino (dentro de cada aula, de aula para aula): breves exposições, trabalho de pares, trabalho individual, trabalho de projecto, breves debates, trabalho de pesquisa, …)
23. Recorrer pontualmente à tutoria entre alunos
24. Criar oportunidades para que os alunos escrevam a sua vida (e a partilham quando quiserem)
25. Organizar situações de aprendizagens dentro e fora da sala de aula que sejam distintas e situadas na “zona de desenvolvimento próximo” de cada aluno (suficientemente exigente, não fácil, mas não situada numa “zona” que o aluno não possa realizar)
26. Ligar o ensino à vida

H. Relação pedagógica
27. Gostar do outro (gostar das pessoas que moram nos alunos)
28. Escutar os alunos
29. Acreditar que todos os alunos podem aprender
30. Criar oportunidades para que cada aluno tenha (pequenos) sucesso
31. Celebrar os pequenos sucessos
32. Dar feedback frequente e orientador
33. Conhecer o percurso escolar de cada aluno
34. Conhecer o contexto de vida dos alunos
35. Inspirar os alunos para que se auto-motivem
36. Gostar da matéria que lecciona
37. Respeitar as singularidades e as diferenças
38. Exigir na medida máxima do possível

I. Relação escola-família
39. Usar o “TPC” para implicar a família na valorização da escola
40. Contratualizar as regras básicas da escolarização
41. Convocar a família (também pelos bons motivos)
J. Modalidades de avaliação
42. Privilegiar a avaliação formativa e formadora ao serviço das aprendizagens
43. Usar a avaliação sumativa e a classificação para estimular os alunos
44. Encontrar sempre no que aluno realiza algo que possa ser valorizado

K. Instrumentos de avaliação
45. Diversificar os instrumentos de avaliação (prova oral, prova experimental, prova escrita, projectos de diversa natureza…)
46. Reconhecer que o uso predominante dos testes escritos cria diversas injustiças escolares e gera insucesso nos alunos menos competentes nesta área.

Publicado no blog Terrear

6.2.12

Eu sou lindo.


O título deste texto é uma afirmação. Uma demonstração de auto-estima e não de culto ao corpo. Mas vamos ao que interessa. Quando chego na sala de aula sempre falo para meus alunos que agora eles terão aulas com o professor mais bonito da escola. Falo isso e fico ouvindo suas exclamações, que são as mais diversas como: “É nada!” “professor mais bonito é fulano” “aqui não tem professor bonito só professoras bonitas” E assim vai. Então eu complemento dizendo. – É claro que sou bonito, minha mãe disse isso e acredito nela. As respostas são as seguintes: “Sua mãe disse isso para você não ficar triste.” “ todas mães amam seus filhos e acham eles bonitos.” “As mães são assim mesmo, tem orgulho de seus filhos”.
Acredito que até aqui conseguimos sentir uma ponta de bons relacionamentos entre mães e filhos. Para extrair mais de meus alunos uso um pouco do que meu amigo P.H. Xavier chama de maiêutica socrática disfarçada. Lanço a seguinte pergunta. Suas mães não acham vocês bonitos?  Nesse caso quase todos concordam. Digo quase porque ouvi uma resposta de uma menina que me deixou triste e com uma pulga atrás da orelha. Ela respondeu o seguinte: “Minha mãe diz que sou uma puta!” ( O leitor me desculpe pelo palavrão. Não encontrei outra palavra que significasse o mesmo e que não tirasse a originalidade da frase dita pela criança). É claro que nesse momento fiquei sem ação. Estava diante de uma clara demonstração da forma errada de educar os filhos.
O que leva essa mãe a falar isso para uma filha? Não estamos falando de uma adolescente rebelde e sim de uma criança de 11 anos.  Talvez a mãe tenha chegado a essa conclusão devido as roupas usadas pela pré-adolescente? Talvez pelo desejo de usar maquiagens? Isso não dá suporte para que a mãe chegue considerar o que disse para sua filha.
Meu amigo P.H. Xavier considera isso despreparo dessas pessoas em ser mãe e pai, e que seria necessário ter cursos de como educar crianças direcionados para todos os adolescentes, antes mesmos de serem pais. Talvez isso mudaria muito o pensamento e cuidados para evitar a gravidez e a transmissão de doenças.
Enquanto professor, tomamos muito cuidado com o que falamos em sala, para não ferir o ego das crianças e para não destruir seus sonhos. Sempre colocamos que é possível realizar seus sonhos. Percebo que o comportamento das crianças na sala de aula refletem muito o que ela aprende em casa. No caso dessa menina, qual seria o seu sonho? Ser aquilo que a mãe afirmou? Augusto Cury afirma que as crianças vivem aquilo que vivenciam em casa. Por isso que acredito que muitos pais precisam de preparação.
Como preparar os pais para serem pais? Fazendo com que retornem para as escolas? Acredito que com profissionais adequados e com bons projetos, nossos governantes provocariam uma grande mudança e não teríamos grandes problemas futuros.
Valter Figueira – Professor e escritor
www.valterfigueira.blogspot.com

28.1.12

Estamos ficando loucos e burros?

Num dia desses o Jornalista Carlos Nascimento comentou no inicio da apresentação do Jornal na Tv o seguinte: “Estamos ficando cada vez mais burros? A mídia ficou mais de uma semana passando e comentando sobre um suposto estupro, e uma simples frase, correta por sinal cria uma celebridade na internet. O que é isso?”
Ele estava comentando sobre o caso ocorrido no BBB12 (que não assisto por achar que agride culturalmente o ser humano ) e a frase “Estamos todos aqui, menos Luiza, que está no Canadá”. Em certa parte o jornalista está certo, o que estaria por trás desses acontecimentos para tanta visibilidade? Certamente a dificuldade do povo de filtrar e compreender as informações que recebem. Sabemos que 30% da população  brasileira sofre daquilo que denominamos  analfabetismo funcional, ou seja,  não consegue compreender aquilo que lê, ou aquilo que houve ou assiste. Como explicar a aceitação de um refrão (porque não considero música) de cunho apelativo sexual “Ai se te pego”.  Parece um “bando” de inocentes que cantam, dançam e não compreendem o que estão falando.
A televisão e a internet estão lotadas de coisas inúteis, é claro que não podemos generalizar, tem programação boas na Tv e idem na internet. Nem os programas de humor estão se salvando. Fui assistir um deles e o que vi foi ridículos comentários sem graça sobre imagens da TV e da Internet, acabou a criatividade. E muitos são considerados, não sei por quais mentes, como programa cultural.
O poder aquisitivo da população brasileira está crescendo, isso é bom. Estamos nos transformando numa sociedade consumista. Mas sabemos como consumir com dignidade para que não transformarmos numa população sem cultura?
Valter Figueira – Professor e escritor

27.1.12

FRASES

"Viver das aparências é querer fazer uma viagem com um carro sem gasolina." (A. Huxley)

"A entrada para a mente do homem é o que ele aprende, a saída é o que ele realiza. Se sua mente não for alimentada por um fornecimento contínuo de novas idéias, que ele põe a trabalhar com um propósito, e se não houver uma saída por uma ação, sua mente torna-se estagnada. Tal mente é um perigo para o indivíduo que a possui e inútil para a comunidade.” (Jeremias W. Jenks)

 Podemos enganar alguns por todo tempo, todos por algum tempo, mas não podemos enganar todos por todo tempo. (Abraham Lincoln)

"Grande parte das boas obras do mundo foram praticadas por pessoas medíocres que fizeram o melhor que podiam." (George F. Hoar)

"No caráter, na conduta, no estilo, em todas as coisas, a simplicidade é a suprema virtude." (Henry Wadsworth Longfellow)

"A verdadeira riqueza não consiste em ter grandes posses, mas em ter poucas necessidades." (Epicuro)

19.1.12

Sobre a leitura

"A escrita, ou a arte, para ser mais abrangente, cumpre funções que mais nenhuma área consegue cumprir. (...) Sinto que há poucas experiências tão interessantes como quando se lê um livro e se percebe "já senti isto, mas nunca o tinha visto escrito", procurar isso, ou procurar escrever textos que façam sentir isso, é uma das minhas buscas permanentes. Trata-se de ordenar, de esquematizar, não só sentimentos como ideias que temos de uma forma vaga mas que entendemos melhor quando os vemos em palavras. Trata-se também de construir empatia: através da leitura temos oportunidade de estar na pele de outras pessoas e de sentir coisas que não fazem parte da nossa vida, mas que no momento em que lemos conseguimos perceber como é. E isso faz-nos ser mais humanos. Na leitura e na escrita encontramo-nos todos naquilo que temos de mais humano. "


José Luís Peixoto, in 'Diário de Notícias (2003)