3.12.11

Nota da CNBB sobre o Código Florestal



O Conselho Episcopal Pastoral (CONSEP) da Conferência Nacional dos bispos do Brasil - CNBB, reunido nos dias 29 e 30 de novembro de 2011, vem manifestar sua preocupação com a possível aprovação, pelo Congresso Nacional, do projeto de reforma do Código Florestal brasileiro. Já aprovado nas devidas Comissões do Senado Federal, o novo Código Florestal, tão necessário ao Brasil, embora tenha obtido avanços pontuais na Comissão do Meio Ambiente, como um capítulo específico para a agricultura familiar, ainda carece de correções.
O projeto, ao manter ocupações em áreas ilegalmente desmatadas (Artigos 68 e 69) e permitir a recuperação de apenas metade do mínimo necessário para proteger os rios e a biodiversidade (Artigos 61 e 62), condena regiões inteiras do país a conviver com rios agonizantes, nascentes sepultadas e espécies em extinção. Sob o pretexto de defender os interesses dos pequenos agricultores, esta proposta define regras que estenderão a anistia a quase todos os proprietários do país que desmataram ilegalmente.
O projeto fragiliza a proteção das florestas hoje conservadas, permitindo o aumento do desmatamento. Os manguezais estarão abertos à criação de camarão em larga escala, prejudicando os pescadores artesanais e os pequenos extrativistas. Os morros perderão sua proteção, sujeitados a novas ocupações agropecuárias que já se mostraram equivocadas. A floresta amazônica terá sua proteção diminuída, com suas imensas várzeas abertas a qualquer tipo de ocupação, prejudicando quem hoje as utiliza de forma sustentável. Permanecendo assim, privilegiará interesses de grupos específicos contrários ao bem comum.
Diferentemente do que vem sendo divulgado, este projeto não representa equilíbrio entre conservação e produção, mas uma clara opção por um modelo de desenvolvimento que desrespeita limites da ação humana.
A tão necessária proteção e a diferenciação mediante incentivos econômicos, que seriam direcionados a quem efetivamente protegeu as florestas, sobretudo aos agricultores familiares, entraram no texto como promessas vagas, sem indicativo concreto de que serão eficazes.
Insistimos que, no novo Código Florestal, haja equilíbrio entre justiça social, economia e ecologia, como uma forma de garantir e proteger as comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas e de defender os grupos que sabem produzir em interação e respeito com a natureza. O cuidado com a natureza significa o cuidado com o ser humano. É a atenção e o respeito com tudo aquilo que Deus fez e viu que era muito bom (cf. Gn 1,30).
O novo Código Florestal, para ser ético, deve garantir o cuidado com os biomas e a sobrevivência dos diferentes povos, além de preservar o bom uso da água e permitir o futuro saudável à humanidade e ao ecossistema.
Que o Senhor da vida nos ilumine para que as decisões a serem tomadas se voltem ao bem comum.
Brasília-DF, 30 de novembro de 2011

Cardeal Raymundo Damasceno de Assis
Arcebispo de Aparecida
Presidente da CNBB
Dom José Belisário da Silva
Arcebispo de São Luis
Vice Presidente da CNBB

Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário Geral da CNBB

23.11.11

O que penso...

Escritores devem escrever, palestrantes devem falar. Qualquer pessoa tem a obrigação de pensar e o direito de se expressar. Claro que isso não acontece num país de analfabetos, onde não se tem interesse em que o povo pense: um povo informado escolheria outros líderes, não ficaria calado quando pisoteiam sua honra, expulsaria de seus cargos os pseudolíderes e tentaria recompor as instituições aviltadas. Mas nós não fazemos nada disso: parecemos analfabetos e afásicos, uma manada de bobos assistindo às loucuras que se cometem contra nós, contra cada um de nós.(Lya Luft)

8.11.11

Inerte




As garras de um mundo obscuro
devora meus calcanhares,
luto contra o tempo tempestade,
luto contra o medo do vento,
da vida e da arte de viver.
Sou lona e musgo,
sou canto e grito,
sou urso, sou urro.
As unhas afiadas da tristeza
ferem minha carne desprovida
de encanto e magia.
Procuro no escuro a magia
de um poema que me arrebata.
Que por três vezes me jogue na superfície,
na quarta decido se quero viver ou fantasiar.
Fantasiar um amor ofuscado
pela fumaça de uma paixão fumegante,
dilacerante que devora meu cerne.
Procuro o alívio em olhos perolados
seios e sorrisos vagantes por aí.
Procuro um eu mais apropriado.
Valter Figueira - do livro "A morte do xerife"

28.10.11

Poesias

"A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita." (Mário Quintana)

"Quero, um dia, dizer às pessoas que nada foi em vão... Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades e às pessoas, que a vida é bela sim e que eu sempre dei o melhor de mim...e que valeu a pena." (Mário Quintana)

"Não importa saber se a gente acredita em Deus: o importante é saber se Deus acredita na gente." (Mário Quintana)

"Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem." (Mário Quintana)

"O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro." (Mário Quintana)

"O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso." (Mário Quintana)

"A literatura é a melhor maneira de ignorar a vida." (Fernando Pessoa)

"Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever." (Clarice Lispector)

"Eu sou mais forte do que eu." (Clarice Lispector)

"Quanto a mim mesma, sempre conservei uma aspa à esquerda e outra à direita de mim." (Clarice Lispector)

"Procurei por todos os meios adquirir a paz do coração, encontrei-a somente na solidão levando um livro comigo."(Thomaz A. Kempis)

"O amor aos livros capacita o homem a transformar momentos de tédio em momentos de prazer." (Montesquier)

"O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado." (Mário Quintana)

"De ti não levo mágoas.

Essas a água leva.

Não levo também as dores.

Não me dói deixá-las.

Deixo saudades porque não vou precisar.

Pois para esse branco, braço não vai faltar.

Nem cabeça para ideias, nem coração para amores.

O que vier, eu traço.

Pra ti, deixo meu abraço."

(Carlos Drummond de Andrade)

"O mundo é minha representação. (...). Não se conhece um sol nem uma terra e, sim, unicamente, o olho que vê o sol e a mão que sente o contato com a terra. O mundo que o rodeia não existe mais do que como representação, isto é, em relação com outro ser.” (Schopenhauer)

"Escrever não é desistir de falar, é empurrar o silêncio para fora." (Fabrício Carpinejar)

"O preconceito é um pensamento parado." (Fabrício Carpinejar)

"Quando se patina sobre gelo fino, a segurança está na velocidade." (Ralph Waldo Emerson)

"As pessoas têm medo das mudanças. Eu tenho medo que as coisas nunca mudem." (Chico Buarque)

"No que depender de mim, me recuso a ser infeliz." (Caio Fernando Abreu)
"Tô me afastando de tudo que me atrasa, me engana, me segura e me retém. Fui ser feliz, e não volto!" (Caio Fernando Abreu)

24.10.11

Hábitos de escrita

Num artigo intitulado “A anatomia da escrita”, da NS´(Notícias Sábado – 276) podem ler-se alguns dos vícios/ tiques de sete escritores portugueses de renome. São eles Hélia Correia, Jaime Rocha, Lídia Jorge, Alice Vieira, José Luís Peixoto, Urbano Tavares Rodrigues e David Machado. Hélia Correia vive nos seus quotidianos ficcionais, adorando permanecer “noutros sítios e noutros tempos”, onde o fazer-de-conta é o seu mundo verdadeiro. Adora esperar sem ter de forçar a escrita, e esperar pela chuva para ganhar energia no aconchego da palavra que se vai fixando na página. Insurge-se contra a palavra esperada/ exata que teima em não aparecer, deixando a frase solta e inacabada, mas resigna-se, mesmo se isso é fisicamente desgastante, porque, afinal, a palavra manda. Isto é, exige um dado momento, num dado espaço que é o dela.
Jaime Rocha, que foi durante mais de trinta anos jornalista, não separa a escrita do que o rodeia, contudo, para entrar no ato literário da produção, afirma ter de estar absolutamente sozinho porque “o chamamento para a vida quotidiana é muito forte”. Criando rituais, com a música, a pintura e a sua solidão, Jaime Rocha, prepara a “chegada da escrita” como se de momento ritualista se tratasse: “Se é a poesia ou romance tenho de ter música erudita e pintura surrealista ou expressionista. A música, que cria uma intimidade e propícia, e os álbuns de pintura, que exponho na secretária de trabalho, fazem-me entrar num espaço outro, muito singular, interior”.

Lídia Jorge fala do exercício da criação literária, do quanto resiste às ideias embrionárias no sentido de avaliá-las. Fala igualmente da sedução que estas impõem não lhe saindo nem da cabeça nem da vida e, percebendo que estas podem ter “qualquer coisa de vulcânico e de revelador”, a escritora cede ao momento da experimentação. Faz-se então silêncio para que o trabalho da criação aconteça durante “todo o tempo do mundo”.
Se Lídia Jorge apela ao silêncio, Alice Vieira, que se denomina uma escritora de vícios, precisa do “barulho da rua, do barulho da vida das pessoas, dos carros a travar, das pessoas a falar”, o que a leva a manter a janela aberta no momento em que escreve e beberica café. Confessa “não ser de escrita fácil”, mesmo se o número avultado de publicações parece querer demonstrar o contrário, e por isso trabalha muito, sobretudo quando se trata da narrativa. Trabalha as palavras e as ideias, não ficando à espera que a inspiração lhe bata à porta. Mais dedicada à literatura infantojuvenil, a escritora confessa ainda distinguir o momento introdutório, onde é necessário prender desde logo o leitor, do momento conclusivo em que, sentindo que só falta meia página, se levanta e vai beber um café para saborear o momento em que coloca o ponto que marca mais um final.
José Luís Peixoto também afirma que o momento de colocar o ponto final lhe é inesquecível. Fica-lhe inclusive na memória o espaço onde estava e como estava nesse momento especial. Afirma também conciliar a sua vida com a escrita para que nela se dilua o que vive e se conciliem a sensibilidade e a disposição. Tem rituais de escrita que não divulga, mas aborda a necessidade de instalar rotinas para assegurar o controlo do tempo e o ajuste com a escrita. Tal como muitos outros prefere o aconchego do silêncio, o tal “quarto sem janelas” que descreve em Nenhum olhar (2005), porque “no momento da escrita, a atividade passa-se toda por dentro”.
Com uma obra literária cuja característica principal é a tomada de consciência do indivíduo face a si mesmo e ao outro, Urbano Tavares Rodrigues ainda prefere escrever à mão, privilegiando o aconchego da noite ou o final da tarde para se encontrar com a escrita pois, aí, nesse tempo somado de horas passadas, encontra-se com os sonhos, a matéria onírica, onde apoia a sua criação. Hoje, aos 87 anos, é na sua secretária que escreve a maior parte dos seus textos, mas já escreveu em qualquer lado, ‘matando o tempo’, mal a inspiração surgia ou andava obcecado com um romance.
David Machado diz, perentório, que não se escreve só quando se está a escrever. Compreendemos que para este escritor as ideias precisam de ser trabalhadas e as palavras bem polidas, num trabalho que é o do artesão. Depois de estruturada a história, na cabeça, DM disciplina-se e cria rotinas rígidas, sentando-se de manhã ao computador para escrever cerca de sete horas e de preferência no silêncio que requer a escrita criativa. Bastante perfeccionista no que escreve, confessa corrigir imenso os seus textos, sobretudo o primeiro capítulo: “sou capaz de reescrever dez ou quinze vezes até o achar sólido o suficiente para lhe dar continuidade.”

Gisela Silva- Publicado no blog voxnostra

3.10.11

Os olhos abertos e cegos do homem,


“ Eu vivia como todo mundo, vendo a vida com os olhos abertos e cegos do homem, sem me espantar e sem compreender. Vivia como vivem os animais, como vivemos todos, cumprindo todas as funções da existência, observando e acreditando ver, acreditando saber, acreditando conhecer o que nos cerca, quando, um dia, me dei conta de que tudo é falso.”

Guy de  Maupassant, Carta de um louco

24.9.11

Função da escola...

Sérgio Niza, professor universitário com uma longa carreira alicerçada na Educação, aprofunda o papel vital da leitura, da escrita e da importância da preparação intelectual do professor para que se gere o conhecimento. Crítico contundente (embora nem sempre passível de concordância) e num discurso frontal, declara-se contra uma postura “clássica” no ensino. Saliento estas passagens: 

“SN: Os caminhos da cultura e da educação, que se fundem, requerem continuidades muito grandes. Transformações, mas continuidades. Raramente saltos! (…) 

 E: Esse ancoramento na história e na cultura vem marcar toda a tua visão da escola e da pedagogia. 

 SN: A Escola para mim é um instrumento poderosíssimo para regular e construir a pluralidade cultural e fazer caminho para a unidade da ciência. E se se perde essa dimensão, perde-se tudo. Sempre entendi um professor como um intelectual, como um trabalhador intelectual. (…) E que um dos seus instrumentos mais poderosos, também um dos artefactos mais poderosos da invenção humana, é a escrita. (…). É através da acção de construção de textos pela fala e pela escrita, que se constrói também o conhecimento. Esta falta de consciência leva a que só o professor é que fala. Mas se o aluno não pode falar o conhecimento, está impedido de utilizar uma estratégia fortíssima para a construção do conhecimento. Se o aluno não escreve o conhecimento, se só responde a perguntas, como é que constrói a escrita do conhecimento? (…) 

Os professores têm de aspirar sempre, não só a ser práticos, mas a pensar e a construir discursos sobre as suas próprias práticas (…) Essa possibilidade de pensar, projectar, dialogar a profissão é que funda a profissão. (…). 

No diálogo que tenho mantido com António Nóvoa cheguei à conclusão de que teremos de acentuar mais a responsabilidade pública da educação. E voltar a rever, em conjunto, em sociedade, os vários papéis educativos: quer das famílias, quer das organizações privadas, quer das várias organizações públicas a vários níveis (desde os municípios, juntas de freguesia, Estado central, etc.). Rever os tempos e as acções e, provavelmente, rever também as responsabilidades da escola. Porque o que está a acontecer é uma inflação brutal de funções e responsabilidades todas atiradas para a escola (…)

 (…) A apropriação do conhecimento faz-se pela construção e pela acção, pela fala ou pela escrita, e não é possível construir aprendizagens sem falar e escrever as aprendizagens. A construção do conhecimento, historicamente, foi sempre feita assim: dialogando, escrevendo. É necessário criar ambientes onde os alunos possam falar, possam dizer o conhecimento, escrever o conhecimento e pô-lo a circular, principalmente na sua comunidade, para perceberem, desde logo, como conhecer é socialmente útil. Eu não estou a aprender para amanhã. Eu estou a aprender para já. Tudo o que eu aprender tenho de partilhá-lo com os outros para ajudar os outros, e se estou a fazer um estudo eu apresento-o aos outros e submeto-o ao juízo dos outros. É ali que ganha sentido. Não é ao professor que eu vou ensinar. O professor é uma figura um pouco imaginária. O aluno tem de produzir para as pessoas reais, com o professor também lá dentro e que o ajuda a ir mais longe.”

 Revista Educação. Temas e Problemas (Publicado no blog vox nostra)